Não te amo como se ama o sol do meio-dia,
que fere os olhos e, no horizonte, se rende ao crepúsculo,
ao lusco-fusco em que o ouro vira cinza
e a luz aprende, mansamente, a despedida.
Te amo como chama acesa na noite fria,
pão sobre a mesa, abrigo no rompante:
amor que, quando o escuro avança, guia,
não se apaga, permanece vigilante.
Te amo com a calma de quem se perdeu de si
e, de repente, se encontra no teu nome;
alma pousada, como ave que retorna,
e, no teu peito, enfim, se consome.
Se um dia me faltar o fôlego, a música — e o mundo, por inteiro,
que a última palavra seja o teu chamado;
e o último clarão, no olhar já cansado,
seja tua face , viva e indelével, no meu escuro derradeiro.
Tu és o instante em que a eternidade desvia o olhar
e sorri, distraída, diante de nós dois;
és o verso oculto onde o corpo aprende a calar,
a pausa reticente que faz a vida caber depois.
Enquanto o mundo corre, em pressa, sem promessa,
tu ficas, leve e firme, como quem sabe e diz:
brasa que insiste, discreta, na cinza espessa,
chama que o vento afronta, e não apaga a cicatriz.
Porque és, minha, o que de mais meu a vida me deixou;
e eu, inteiro, sem metade, sou tudo o que em ti se encontrou.

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