quarta-feira, janeiro 07, 2026

o que de mais meu a vida me deixou

Não te amo como se ama o sol do meio-dia,

que fere os olhos e, no horizonte, se rende ao crepúsculo,

ao lusco-fusco em que o ouro vira cinza

e a luz aprende, mansamente, a despedida.


Te amo como chama acesa na noite fria,

pão sobre a mesa, abrigo no rompante:

amor que, quando o escuro avança, guia,

não se apaga,  permanece vigilante.


Te amo com a calma de quem se perdeu de si

e, de repente, se encontra no teu nome;

alma pousada, como ave que retorna,

e, no teu peito, enfim, se consome.


Se um dia me faltar o fôlego, a música — e o mundo, por inteiro,

que a última palavra seja o teu chamado;

e o último clarão, no olhar já cansado,

seja tua face , viva e indelével, no meu escuro derradeiro.


Tu és o instante em que a eternidade desvia o olhar

e sorri, distraída, diante de nós dois;

és o verso oculto onde o corpo aprende a calar,

a pausa reticente que faz a vida caber depois.


Enquanto o mundo corre, em pressa, sem promessa,

tu ficas, leve e firme, como quem sabe e diz:

brasa que insiste, discreta, na cinza espessa,

chama que o vento afronta, e não apaga a cicatriz.


Porque és, minha, o que de mais meu a vida me deixou;
e eu, inteiro, sem metade, sou tudo o que em ti se encontrou.




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