quinta-feira, dezembro 10, 2020

BREVE RELEITURA SOBRE O MINISTÉRIO SACERDOTAL DE ELI, O FIM DE SUA CASA E O CHAMADO DE SAMUEL: SEMELHANÇAS ATUAIS

   A primeira referência ao sumo sacerdote Eli é feita quando Ana, ainda estéril, vai ao santuário de Deus para falar com o Altíssimo. Ali ela encontra Eli, que era um sacerdote não apenas de visão curta, ele também tinha pouca sensibilidade para o acolhimento daqueles que vinham ao encontro de seu lugar de culto. Escorado em apenas um dos pilares daquele templo que lhe dava sustento [1:9], tentou do alto de sua posição como sacerdote [1:12], dirigir uma admoestação à Ana [1:14]. Eli poderia ter se levantado da confortável posição que seu trono lhe dava, para entender as angustias daquela mulher que chorava a ponto de apenas balbuciar [1:13]. Em vez disso preferiu usar seu momento de culto para lhe dirigir palavras de grosserias, imputando-lhe pecados aleatoriamente, de forma sortida, sem discernimento, compromisso com a verdade, empatia, acolhimento ou sentimento pastoral. Ana se defende dizendo que não é uma mulher sem caráter [1:16], como ele suponha, e ele, sem pedir desculpas, pede que ela se vá, e fala como se fosse um sacerdote que poderia chancelar as bênçãos de Deus sobre ela [1:17]. Ana, tempos depois, volta com um filho, chamado Samuel [1:25] e o oferece como um servo, Eli aceita que o jovem Samuel sirva ao Senhor debaixo de sua autoridade sacerdotal [2:11].

       Samuel não vestia a mesma “camisa” ministerial de Eli e seus filhos, Hofni e Finéias. Ele usava uma roupa de acordo com a sua medida. [1 Sm 2:19]. Embora o sacerdote Eli realmente estivesse com problemas de visão [3:2], ele não era inocente. Sabia do seu erro [3:18], do de sua casa [2:23], de seu templo [2:22] e do culto de seu povo [2:17], mas não tomava providências [3:13]. Os filhos de Eli sentiam-se privilegiados por suas posições [2:16]; sentiam-se superiores ao povo [2:22]; e não esperavam o processo regular, antes atropelavam as pessoas e passavam por cima dos degraus, não respeitando as etapas que todos outros tinham se submetido, apenas para conseguirem o que queriam [2:15-16].

      Eli acreditava que, porque Deus havia se manifestado à casa de seu pai [2:27], Deus estaria obrigado a cumprir a promessa para servir aos seus filhos [2:29]. Eli acreditava que Deus estava comprometido com sobrenomes de família, que Deus era “deus de casas” e de árvores genealógicas, era “deus da hereditariedade”, um “deus tribal”. Deus então diz a Eli que Ele não cumprirá o que prometeu [2:30], pois não houve uma via de mão dupla na lealdade, isto é, Eli havia corrompido a noção do cargo sacerdotal, transformando o ofício em projeto pessoal de poder.

       Quando Deus chama Samuel pela primeira vez, diferente do que a maioria das pessoas percebem, ele responde: “Eis-me aqui” [3:4], mas o atender ao chamado é uma atitude penúltima, a atitude última é se reportar a Eli [3:5]. Samuel acreditava que diante de um chamado pessoal, deveria responder ao sumo sacerdote. Samuel raciocinava que o seu chamado emanava daquela autoridade humana. Samuel se posiciona perante Eli, que estava deitado e com a visão limitada pelo tempo e ambiente [3:2]. E Deus ficou em silêncio. Eli era um homem que estava acostumado a receber as pessoas no templo, abençoa-las, e devolve-las para seus lugares [2:20]. Eli faz a mesma coisa com Samuel, lembra-o de onde veio ao manda-lo de volta ao seu lugar, com um adendo, este deveria se colocar na mesma posição a qual se colocava Eli, isto é, deitado [3:5]. Interessante que a história se repete por três vezes, e em todas elas Deus prefere falar com um Samuel deitado, mas se recusa a falar com um Samuel posicionado em pé, respondendo ao sacerdote.  Mas na terceira vez, Eli finalmente percebeu que esta história toda não se tratava dele [3:8]. Eli repete a orientação, Samuel deveria voltar ao seu lugar e deitar-se, mas, desta vez ele explica para Samuel que não mais deveria tutelar Samuel e este deveria responder diretamente a Deus [3:9]. Longe da chancela da religião hierarquizada e compartimentalizada, Deus pôde manifestar-se a Samuel, num diálogo que conflitava com os interesses de Eli [3:11-14]. Os olhos de Samuel se abrem, não mais apenas para as realidades espirituais, mas também para a realidade da política ministerial, Samuel passa a temer o autoritarismo que o cargo de Eli poderia lhe conferir [3;15], pois já não era somente a roupa que vestia que o diferenciava de Eli e sua casa, mas também a palavra contrária que passou a carregar em seus lábios. Eli assedia Samuel e pede que Samuel não encubra nada do que Deus havia lhe dito [3:17]. Eli, o homem com visão obscura, queria de Samuel as coisas às claras; o homem que encobria tantos erros, queria que Samuel não lhe encobrisse nada. Cobrava de Samuel algo que ele nunca havia sido. Samuel, porém, contou tudo a Eli, não lhe escondendo nada [3:18].

       Mesmo com todos os avisos, Eli e seus filhos acharam que seria uma boa ideia envolver Deus em suas brigas políticas com os filisteus [4:1]. Acreditavam que o simples deslocamento dos símbolos eternos de sua religião para o confronto temporal e circunstancial iria justifica-los [4:2]. Hofni e Finéias emprestaram seu sacerdócio à guerra política, ignorando a “Lei das Guerras” que recomendava a proposta de paz [Deuteronômio 20:10]. Seu pai, Eli, sabia de tudo isso e consentia. A História aponta que Eli não tinha facilidade em reconhecer jovens lideranças que não estivessem sob o seu controle. O sacerdócio havia sido dado à família de Arão, pela linhagem de Eleazar [Números 25:11-13]. Pelas regras, Uzi, foi nomeado sumo sacerdote no Monte Gerizim. Eli era o sacerdote supervisor da casa de Itamar, um outro filho de Arão. Eli tinha uma posição dominante, homem mais velho, que oficiava como sacerdote supervisor. Ao perceber que seu poder verticalizado e influência hierárquica como sacerdote poderiam ser minados por alguém que ele fingia não existir, Eli se recusou a aceitar a autoridade de Uzi, muito mais jovem, e retirou-se do Monte Gerizim para Siló e fundou ali um novo centro religioso.  Esta facciosidade política no meio do povo o enfraqueceu, tornando-os suscetíveis às investidas dos filisteus. Moisés havia predito esta divisão [Deuteronômio. 31:29]. Agora temos Eli, o homem que confundia a religião com suas pretensões políticas, acreditava que Deus também estava interessado na sua trama contra os filisteus. Eli estava à beira do caminho [Lucas 8:12] quando recebeu a notícia. Todas aquelas atitudes puseram um fim a continuidade do ministério de sua casa [1 Samuel 4:17]. Eli teve um ministério de quarenta anos. Mas encerrava-se ali, quase na porta, quase cego e quase no caminho:

  1. envelhecido e profeticamente com o ministério anacrônico, pois estava mais envolvido com a ordem de seu tempo do que com o Kairós de Deus [1 Samuel 2:35];

  2. gordo e profeticamente com o ministério pesado, pois carregava consigo o peso de seu autoritarismo grosseiro [1 Samuel 1:14] e hierarquia verticalizada, representando anos de privilégios de sua classe [2:19];

  3. fora de sua cadeira e profeticamente com o ministério destronado, pois as suas influências, isto é, seus braços não mais marionetariam o povo [ 1 Samuel 2:31]. A primeira referência a Eli o mostra sentado na cadeira [1:9] e sua história termina com ele fora dela; e

  4. caído para trás e profeticamente com o ministério removido, pois Deus chamou Samuel antes que a última lâmpada do candeeiro de Israel se apagasse [1 Samuel 3:3], conforme Jesus diz ao pastor de Éfeso, que também tinha caído para trás e estava prestes a ser removido: caístes, lembra-te e arrepende-te e volta ao que foi antes, pois venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro [apocalipse 2:4-5].





domingo, novembro 22, 2020

OS PACIFICADORES E A CUMPLICIDADE DO SILÊNCIO

 "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus"

— Jesus de Nazaré, durante um de seus sermões.

 

No original, em grego, o "eirénopoios" foi traduzido para "pacificador", longe de ser o estereótipo daquele que evita ou está alheio aos conflitos, porém é aquele que corajosamente denuncia o conflito e declara os termos de Deus aos homens, de que n'Ele nos tornamos inteiros e fora d'Ele somos partes facciosas.

É preciso ter a coragem de enxergar a realidade da nossa sociedade injusta, dos segregados, dos oprimidos, dos marginalizados e, assim, movidos pela utopia* maior e pelo desejo de ver as coisas em seus devidos lugares, tal qual no Paraíso, sermos os pacificadores, na real significação da palavra.

O pacificador não é emudecido diante da imposição autoritaresca; não é conivente às estruturas persecutórias; não é acomodado pelo esconderijo do servilismo; não é sabujo verborrágico de tiranetes; não é vassalo, pois não reconhece o direito de ninguém encabrestar o outro, sentindo nisso algum privilégio; não faz da obediência um escape existencial para o absentismo ético; não é cúmplice de atrocidades; não é condescendente ao minimizar crueldades; não perpetua vãs tradições; e não é coparticipe de hierarquias e sistemas entorpecidos.

Justamente por isso, em muitos textos sagrados, o pacificador é um agitador do Reino no sistema chamado 'mundo'. O Anticristo virá trazer uma falsa paz. Mas o Reino de Cristo é Justiça, Paz e Alegria. Não há alegria sem paz, e não há paz sem justiça.

O que o pacificador mais deseja não é a mera calmaria para seu conforto pessoal, mas a harmonia idealizada na Criação.

Seja chamado de Filho de Deus: proclame a inteireza em Cristo, a integralidade no repartir do pão e da horizontalidade nas relações humanas de Graça. Condene a facção, o partidarismo, o fanatismo, a segregação, a marginalização e a injustiça!

SOLI DEO GLORIA

P.s. "Utopia" aqui não é no sentido pejorativo de "ilusão", mas no sentido original (etimológico) de "não-lugar", ou seja, como significado de um ideal que não se realizará no agora, no curto-prazo, mas que pode vir a ser construído até o futuro, isto é, a longo prazo.



quinta-feira, novembro 19, 2020

JESUS COMO GURU IDEOLÓGICO DOS CRISTÃOS DE DIREITA, OS ANÁTEMAS DO EVANGELHO

       O evangelista João, no capítulo seis, nos relata uma passagem muito interessante. Jesus estava no alto e viu, a baixo, uma multidão com fome de pão. Perguntou a Filipe como poderia comprar pão para alimentar a todos. Felipe responde, muito antes da ideia moderna de capitalismo e socialismo que, ainda que trabalhassem por meses, não conseguiriam acabar com a fome de todos. Jesus queria testá-los. Seus conceitos humanos estavam viciados. Jesus então, através de uma doação, ensina o poder da multiplicação. Era um milagre divino que aconteceu através de alguém que compartilhou o pouco que tinha. Era Deus operando na fraternidade.

      Mas ao vê-Lo satisfazendo algumas demandas da vida [a fome], o povo diz que ele era um profeta que haveria de vir ao mundo. A povoação via em Jesus alguém que iria dar um jeito neste mundo e não alguém para dar um jeito em nós e, assim, nos salvar deste mundo. A multidão quis destituí-Lo, rebaixando-O de Deus para rei. Queria tomá-Lo à força do alto do monte para reduzi-Lo a um palácio. Acharam que Seu Governo era temporal e não Eterno. Jesus fugiu do povo que o via como representação de suas convicções ideológicas e expectativas políticas.

      Jesus foge até hoje destas mesmas pessoas que não O entendem como ‘do alto’, mas querem colocá-Lo à direita ou à esquerda de suas paixões mundanas. Qual o cristão verdadeiro que não tem se incomodado com pastores e padres pregando contra pessoas que são da esquerda, centro ou direita? Com a exaltação nos púlpitos a figura de Bolsonaro e Trump ou outros césares? Veem nestes governos a consagração dos costumes ocidentais, a perpetuação da moralidade seletiva e a demonização da fraternidade como se fosse marxismo.

       Além do povo, houve outro alguém que quis colocar os reinos deste mundo como algo a ser oferecido aos pés de Jesus. Seu nome é Satanás. Ele ofereceu todos os reinos, pois ele reconhecia as variações. Poderia ter oferecido o “reino humano”, mas ofereceu “os reinos”, e ainda oferece:

”E o diabo, levando-O a um alto monte, mostrou-Lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-Lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero”.

 

        Todos os reinos humanos, Satanás disse, são dele, porquanto o homem lhe entregou. Não se surpreenda se Satanás oferecesse o tal “Brasil conservador” na lista de um dos seus reinos, ou você pensa que somente os reinos progressistas são dele? Jesus não morreu por modelos políticos, ele morreu por homens de todos os reinos, tribos, línguas e nações.

           Ao enaltecermos em nossos púlpitos os governos humanos existentes, estamos fazendo como Caim e oferecendo as obras de nossas mãos ao senhor em vez de sermos como Abel e confiarmos apenas no holocausto. Sim, o púlpito é um altar e nós somos sacrifícios vivos em louvor a sua Glória, porquanto rejeitamos os governos temporais deste mundo para vivermos o Evangelho d’Aquele que é Eterno. Quando, porém, no altar, o sacerdote apresenta para a igreja o poder e a gloria de seus líderes humanos, estão sendo não os representantes do Reino de Jesus, mas sacerdotes de Satanás, o deus deste século. Pode soar forte o que digo, mas enquanto não acordarmos para a realidade de que não há esperança neste mundo fora de Jesus, ou aceitarmos isto em parte, isto é, acreditarmos que a salvação do mundo também está no modo de César nos governar, seremos tão pagãos quanto todos os povos que não ouviram falar de Jesus e do seu Evangelho. Seremos como aqueles que confundiram Jesus como expressão política.

           Há uma revelação escatológica que, ao tocar da sétima trombeta, os salvos dirão, do alto, que “os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre”.

         Pode parecer a mesma coisa, mas não é.

         Aqueles que anunciam, junto a Satanás, que os poderes, as glórias, os modelos econômicos, as justiças, as moralidades e as coisas destes reinos do mundo possam ser incorporados ao Reino de Jesus e ofertados aos seus pés, estão em oposição diametral àqueles que dizem que são estes reinos que devam ser de Jesus e para Jesus e não Jesus destes reinos e para estes reinos.

     Muitos cristãos acreditam que lhes cabem o direito de anatematizar o próximo por não adotar um sistema teológico idêntico ao seu. Baseiam-se em Paulo que nos ensinou que qualquer um que nos anuncie um outro evangelho seja anátema (maldito).

          Digo o que Paulo diz: que seja anátema quem trouxer o evangelho para além ou aquém do Evangelho Único, o de Jesus! O Evangelho não é sistema teológico, mas a encarnação do Deus Vivo, sua morte e ressureição.

             O Evangelho AQUÉM é aquele que faz supressão do ensino e do espírito de Jesus nas práticas do Evangelho.

               O Evangelho ALÉM é aquele que faz acréscimos.

          Vejo muitos cristãos, padres e pastores que querem diminuir as implicações do Evangelho a fim de que ele, o Evangelho, caiba nas tradições e nas concessões do modo político de pensar nas várias áreas da vida.

       Deste modo, não sou contra que o cristão seja um cidadão terreno, mas que não confunda sua cidadania terrena com a celestial. Paulo era um cidadão romano, contudo nunca se ouviu dele dizer que Roma deveria ser uma Igreja ou que César deveria passar a representar os cristãos e os bons costumes.

          O Apocalipse trata a Política como uma Potestade; e que, portanto, quem quer que com ela se envolva, saiba que anda no chão da perversidade, da mentira, da traição, do engano, da imagem, e da mais profunda indução à hipocrisia como culto à preservação da imagem e à idolatria como culto ao poder.[1]

           Os cristãos de esquerda, meus irmãos, podem estar equivocados em muitas coisas e eu próprio não sou de esquerda. Todavia observo os cristãos de direita, também meus irmãos, vilipendiando àqueles, dizendo que não são de Cristo, pois não fazem parte do seu ponto de vista político, por não terem votado em Bolsonaro ou por não o apoiar. Isto, meus irmãos, é deslocar Jesus do alto para reduzi-lo ao pensamento moderno de direita; é destrona-Lo do posto de Salvador do mundo, para colocá-Lo como líder partidário, guru ideológico e deus deste século. Quando cristãos de direita dizem que é impossível ser cristão e de esquerda, estão negando a Cruz de Cristo como único meio salvífico e, assim, assumindo que a ideologia politica é um meio de se achegar a Deus.

           Jesus fugiu daquele povo, pois seu caminho não era um trono, mas a cruz. Se você é um cristão de Direita que acredita e profetiza que a salvação do Brasil é ter Bolsonaro na cadeira presidencial e a salvação do Mundo é ter Trump reeleito; ou se você é um cristão de Esquerda que acredita que Lula e Biden são a salvação, então você é ainda pior do que aqueles que queriam coroar Jesus como rei de Israel. Vocês coroariam César como salvador do Mundo, em nome da defesa dos ‘costumes civilizados’ em detrimento dos bárbaros e suas ameaças culturais.

          Ao anunciar os "ideais da direita" como as boas e novas notícias para o mundo, os cristãos, tornaram-se anátemas daquilo que acreditam defender.

          Voltemos ao Evangelho.

SOLI DEO GLORIA

 


 


Referência:


[1] JESUS E O TEMA POLÍTICO: Jesus e Jesuses. Pastor Caio Fábio.

domingo, novembro 01, 2020

JESUS E A MULHER SAMARINATA: MINHA DEFESA DA PREGAÇÃO DO PASTOR ED RENÉ KIVITZ, EM 15 PONTOS


O pastor batista Ed René Kivitz tem sido acusado por uma horda de caluniadores, com um vídeo recortado e fora do contexto, de que Jesus teria oferecido o seu sêmen a mulher samaritana naquela célebre conversa que ambos tiveram sozinhos no poço. É mentira! O que ele diz é que a mulher poderia ter, no início da abordagem, interpretado Jesus de forma diferente, pois ela era uma adultera acostumada com homens que a vissem e tratassem apenas como objeto sexual, mas que depois ela percebe que Ele era diferente de todos os homens. Apoio a possibilidade desta interpretação e para isso elenco 15 pontos que fazem esta defesa


PRIMEIRO PONTO: não coloco vídeo recortado, como injustamente fazem todos, coloco a mensagem completa, do início, a baixo:



SEGUNDO: é interessante como lemos as Escrituras e admitimos que os irmãos de Jesus não criam que ele era o Messias, que os fariseus achavam que Jesus curava por demônios. Ou seja: admitimos que Jesus foi interpretado como farsa, endemoniado, bruxo, bêbado e era associado a prostitutas.

TERCEIRO: que admitimos a ideia de que o Livro de Cantares pode ter uma interpretação tanto sexual quanto espiritual.

QUARTO: que a mulher samaritana não estava esperando um Messias para a salvar e que estava acostumada com homens que a procuravam apenas como objeto de satisfação sexual.

QUINTO: que Jesus, antes de falar com a mulher Samaritana, despistou os discípulos mandando-os comprar pão, pois eles não estavam aptos, ainda, para que vissem Jesus rompendo as fronteiras étnico-raciais, de gênero, religiosas, de classe, e geracionais e provavelmente se intrometeriam no diálogo, a condenando pela vida de imoralidade sexual ou censurando.

SEXTO: que admite-se a noção de repugnância que os fariseus tiveram quando viram que uma pecadora beijou os pés de Jesus, pecadora que havia usado a sua mesma boca e corpo, dias ou horas antes, de forma pecaminosa, inclusive com este dinheiro adquiriu o óleo perfumado que o ungiu.

SÉTIMO: que sabemos que Jesus disse com todas as letras que "as prostitutas" entrariam no Reino dos Céus, primeiro que os fariseus.

OITAVO: que Jesus era homem, macho, completo, com todos os órgãos sexuais e de excreção, e que foi crucificado nu diante de todos e que as mulheres foram até a Cruz e viram-no ali, nu.

NONO: que o profeta Oseias casou-se com uma prostituta, foi traído por ela e saiu gritando nas ruas, na linguagem de hoje: “assim como eu fui corneado pela minha mulher, vocês têm corneado a Deus quando se relacionam com outros povos e seus deuses”

DÉCIMO : que Ezequiel, ao tratar de Israel, esposa de Deus, disse que ela desejou amantes com genitais grandes como de jumentos e ejaculação (fluido) como de cavalos. (Ezequiel 23:20)

ONEZIMO: que Nicodemos, um mestre da Lei, chegou a pensar que o "nascer de novo da água e do Espírito") significaria que ele deveria ser reintroduzido no ventre da mãe, talvez por uma relação sexual gerando um parto normal com o rompimento da bolsa d’água (que hoje todos sabemos que é no sentido espiritual, não físico-literal, mas um mestre não sabia)

DUODÉCIMO: admitimos também que na língua portuguesa a palavra “gozo” está relacionada ao orgasmo humano e se eu disser para uma moça: “entre no gozo do seu Senhor”, ela poderia interpretar de maneira errada e não “gozo” como “alegria”

TREDÉCIMO: que no CD da Banda Voz da Verdade, tiveram que colocar um asterisco em “CHUVA DE SANGUE” explicando que: “mas lá em Gósen” era uma cidade egípcia [e não, um homófono de “gozem”, do verbo “gozar”], sabendo que no século XXI a interpretação do leigo que ouviria poderia ser esta: sexual/pornográfica.

DÉCIMO QUARTO: mas não queremos admitir a hipótese de que, de início, pode não ter havido uma compreensão por parte daquela que era mulher, adúltera e samaritana, de que Jesus era diferente dos outros homens, e de que ela não teria estranhado a sua abordagem, como um judeu interessado nela? Não queremos admitir a hipótese de que ela não teria de início entendido que “água” e “fluido”, “vivo e dentro dela”, era uma linguagem santa e espiritual? Ou seja: um doutor da Lei não entendeu, mas ela entendeu de primeira?

ÚLTIMO PONTO: Para quem não entendeu o título da mensagem, assista. Mas, como quem prefere tacar pedra que aprender, eu resumo: como expliquei acima, no Velho Testamento, Deus exigia fidelidade de Israel, ela deveria relacionar-se somente com Ele. Ela não o fez e O rejeitou, Deus então a trata como promíscua. Deus trata o culto como relação sexual: cultuar outros deuses era como adultério. No Novo Testamento, porém, Jesus não se relaciona só com judeus, ele fala com samaritana, romanos e gregos, e vai além, aceita a adoração destes, como culto à sua pessoa. Promiscuidade é a convivência com diferentes pessoas em situações adversas, é ser misturado, heterógeno... Jesus foi rejeitado por Israel e vai se relacionar com outra noiva: os gentios. Daí o jogo de palavras: “Jesus é o Deus que se promiscuiu, relacionando-se com outros povos”.

Há como negar os pontos levantados aqui? Por qual razão chamar um pastor que está ensinando teologia para a sua Igreja de herege e blasfemo? 

Com muita perplexidade eu faço esta publicação. Quanto mais o tempo passa, mais enxergo a distância que se alonga da minha capacidade de compreensão da dos meus irmãos. E falo isso com muita tristeza no coração, pois alguns são mais velhos e são superiormente hierárquicos. Me questiono se lemos a mesma Bíblia.

Quem quiser refutar os pontos levantados, sinta-se à vontade. Mas por gentileza, sem adjetivos e ofensas, contudo com uso de argumentos bíblicos, históricos e lexicográficos.

Agradeço,

William Frezze.

[postado originalmente no meu Facebook]




terça-feira, outubro 06, 2020

CHAVES E CONEXÕES

 A conexão é uma das principais chaves que geram o amor.

A maioria das chaves simplesmente não nos acessam. 

Poucas conseguem acessar uma ou duas das três portas do nosso tempo, mas não todas elas. Algumas até conseguem acessar nosso passado, com confidências; ou até mesmo o nosso presente, na necessidade do agora, mas às vezes não vemos aquela pessoa no nosso futuro, em um longo olhar para o horizonte de nossa vida.

Outras até acessam o futuro, mas não confiamos nela o nosso passado.

Há aquelas conexões que acessam o nosso corpo, entretanto falham no coração.

Quando acessam nossos sentimentos, não compartilhamos os pensamentos.

Outras acessam a ocasião, mas não a completude.

Há conexões que preenchem os olhos, mas não nos sustentam no caminho.

Muitas geram o nosso sorriso, mas poucas acessam as lágrimas.

Algumas abrem portas para a amizade, contudo não para amor.

Deste modo, percorremos parte da vida procurando ou esperando pela conexão humana que mudará a nossa vida.

Porém, o mais infeliz de nós é aquele que ao ser acessado esconde-se por trás de alguma porta, empurrando-a em direção contrária, por achar que deve ser cedo demais para abrir passagens com a finalidade de se viver uma conexão real, entretanto não tem o mesmo receio de viver uma vida de tantas conexões rasas ou postiças.

As chaves e fechaduras foram feitas pelas mesmas Mãos e pensadas pela mesma Mente, sendo matéria da mesma matéria — mas em outro tempo/espaço —, antes de serem colocadas em bolsos distintos. Somente o (re)encontro possibilita a abertura e o redescobrimento de si no outro.

O design de cada aspecto, curva e chanfradura tornam-nos únicos. O acesso que este encontro carrega é o ideal para o qual fomos idealizados: nos relacionar com intimidade, fluxo, conexão e acesso. O resto é perder tempo brincando de esconde-esconde.

(Esboço de um pensamento, William Frezze)






segunda-feira, junho 08, 2020

A IGREJA, A FÉ, A RAZÃO E A IMPOSIÇÃO DA REALIDADE


“A fé mostra a realidade daquilo que esperamos; ela nos dá convicção de coisas que não vemos” Hebreus 11:1

             Em uma escola dominical, na Sede da Igreja Voz da Verdade, o já saudoso mestre Mário ensinou-nos sobre a importância da leitura panorâmica em contraste com a mera fotografia. Para isso ele utilizou-se da célebre história de José, o sonhador. Qualquer um que olhasse para ângulos isolados na vida de José veria “túnica colorida”, “sonhos”, “feixes”, "Sol, Lua e estrelas”, “cova”, escravidão”, “calúnia”, “prisão”... São peças incompletas que se confundem entre o escuro e o claro; o árido e o colorido. No entanto, se pudéssemos percorrer com os olhos o espetáculo do horizonte, a perspectiva geral, o quadro completo, então veríamos que o José sonhador, fantasioso, devaneador era o projeto do poderoso Zafenate-Paneia, o salvador do seu mundo.

             Não sei se consegui resumir bem, mas é a minha lembrança daquela aula.

             Por qual razão relembro esta lição? Semana passada estive conversando com uma amiga minha, da mesma congregação, e falávamos sobre este binômio que antagonizou-se na mente das pessoas: Fé vs. Razão; dois conceitos, cuja junção representa a possibilidade harmoniosa em verdade, ainda que subjetiva.


             Durante o diálogo fui questionado: “A fé age no impossível? Existe razão na impossibilidade? ” Até brinquei, perguntando se a fala era retórica ou se eu deveria responder. Pois bem, após meditarmos conclui o que segue a baixo.

             Sim, a fé age no impossível, mas não somente, todavia subsiste do mesmo modo nas coisas que não vemos. A fé, ao contrário do que se costuma acreditar, não é sinônimo de impossibilidade.
             ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem. A Concordância de Strong, excelente dicionário/concordância resume assim:


             A fé é o fundamento [hypostaseōs] e a convicção [elenchos]. É o que nos dizem os originais.

a.       Hypostaseōs significa “título de posse" é a garantia do Senhor para cumprir a fé que d’Ele nasce.
b.       Elenchos, por sua vez, indica o “controle”, isto é, a convicção interior que se concentra em Deus, confirmando seu nascimento da fé, aquele pelo qual as coisas invisíveis são provadas (testada, verificada) e, por isso, estamos convencidos de sua realidade. Ou ainda, do resultado interno da prova de que é uma convicção.

             Vemos que isso está muito distante de uma fé fantasiosa, ou irracional, mas ela é “fundamentada” e “provada“, ou seja, a Galeria dos Heróis da Fé, descrita em Hebreus 11, não é uma fantasia de desequilibrados e as histórias mirabolantes ali descritas foram experimentadas em Deus, e não fruto de irresponsabilidades ou ilusões.
             Dito isto, nem sempre a fé é a impossibilidade, porquanto, por vezes, ela pode ser uma possibilidade distante.
             A fé pode ser uma questão real, possível, palpável, mas que diante da nossa leitura pobre, visão curta, ótica carnal e compreensão natural, não assimilamos.

             A segunda questão foi  se “existe racionalidade no impossível”.

             A impossibilidade, por si só, é uma percepção racional. A irracionalidade faz com que você não diferencie a realidade da ilusão. É a razão quem te dá a noção do que seja possível ou impossível. Se não formos racionais confundiremos os dois mundos: natural e espiritual. Espiritualizaremos o mundo natural e naturalizaremos o mundo espiritual.

             Vejamos: "ver pelos olhos da fé" é acreditar no que, embora já exista, ainda está nos planos de Deus. “o visível não foi feito daquilo que se vê
             A lição que nos trouxe o pastor Mário: a pintura em um quadro é um todo feita de pinceladas que, isoladas são informes.
             A Abraão, pai da fé, não foi lhe pedido o impossível. Mas diante de um pedido em que ele não enxergava uma saída disse: “Deus proverá! ”. Ou seja, ele decidiu ver a provisão que existia nos Planos de Deus. Se pudéssemos fotografar Abraão naquele momento: um homem, um cutelo, um monte, um altar, um filho único, um sacrifício. Esta era a fotografia. Mas o panorama revelaria: um cordeiro e uma provisão!
             José, em um horizonte maior, viu além de seu poder temporal, e “pela fé, no fim da vida, declarou com toda a confiança que os israelitas deixariam o Egito e deu ordens para que cuidassem de seus ossos”. Onde está a impossibilidade aqui? O texto explica:

Todas estas pessoas viveram na fé e morreram sem terem visto o cumprimento das promessas; mas foi como se as vissem de longe, e crendo nelas, aceitaram-nas. Eles reconheciam que aqui na Terra eram estrangeiros, vivendo de passagem.

             O mesmo texto, porém, apresenta coisas impossíveis, como “pela fé caíram as muralhas de Jericó, depois de o povo de Israel ter marchado à volta deles por sete dias.” A fé no milagre é a fé na impossibilidade, ou não seria milagre. Vejam, a Bíblia lista: dons de curas, dons de operação de maravilhas (braços nascerem, pernas crescerem, morto ressuscitar!) e tem o dom da fé. E também existem outros dons, como a ciência, sabedoria e discernimento.
             A Bíblia, como nós a conhecemos, faz parte não de uma irracionalidade, mas do Divino revelando ao homem seu Plano. Existe razão na fé.
             Deus, por exemplo, manda o profeta Oseias ir e casar-se com uma prostituta. O que Ele faz? Manda o profeta explicar de forma racional que Ele, Deus, assim como Oseias, é corneado pela prostituta chamada Israel. Os demais profetas também, tinham a missão de revelar o Plano da Salvação. A Salvação é pela Graça, mediante a Fé. Sem Fé é impossível agradar a Deus. Ao mesmo tempo que nossa adoração deve ser prestada pela razão, que é a lógica operando através do raciocínio divino conhecido pela fé.
             Esse antagonismo entre fé e razão intensificou-se em março, fruto da discussão se Deus iria impedir que seus filhos se contagiassem com o Coronavírus. Uns garantiam “na igreja você não pega”, outros frisavam “só quem tem a brecha do medo pega o vírus”.
Já nesta época eu contestava esta fé que espiritualiza o mundo natural. Uma fé triunfalista que prega o nosso triunfo aqui, nesta vida. Uma fé de "confissão positiva", como se Jesus fosse uma palavra mágica. É o que ensina o autor aos Hebreus, ao falar de Abraão, Isaque e Jacó:
“[A fé os levaram a] reconhecer que eram estrangeiros e peregrinos neste mundo. Evidentemente, quem fala desse modo espera ter sua própria pátria. Se quisessem, poderiam ter voltado à terra de onde saíram, mas buscavam uma pátria superior, um lar celestial. Por isso Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois lhes preparou uma cidade. ”
             Não existe fé triunfalista! O contraste? A igreja primitiva que morreu louvando a este Deus. O próprio Cristo na Cruz clamando o seu Pai não foi livrado da Cruz ou da Ira.
             O autor ao Hebreus acaba com este conceito neopentecostal de fé:
“[Pela fé] outros, foram torturados, recusando-se a ser libertos, e depositaram sua esperança na ressurreição para uma vida melhor. Alguns foram alvo de zombaria e açoites, e outros, acorrentados em prisões.  Alguns morreram apedrejados, outros foram serrados ao meio, e outros ainda, mortos à espada. Alguns andavam vestidos com peles de ovelhas e cabras, necessitados, afligidos e maltratados. ”

             Vejam, a fé, não no Deus que os livraria, mas eles recusaram ser libertos pela fé, na convicção da Esperança que não está nesta vida, mas na ressurreição para uma vida melhor.
“Ah, mas Deus se não livra do fogo, pelo menos no fogo”
             Sim, pode ser, mas será sempre assim? E se não for? Para qual proposito Deus livra do fogo? Se nós nos convertermos de verdade a gente não vai mais viver apenas para as coisas boas deste mundo que, embora não sejam pecaminosas, mas não são essenciais, por mais maravilhosas que possam ser. Quando eu vejo uma igreja preocupada com suas acomodações aqui me lembro do que Jesus disse: “onde está o tesouro ali está seu coração” e também: “Quando eu, o Filho do Homem, voltar, quantas pessoas encontrarei que tenham fé? ”.
             A grande questão que se coloca, portanto, não é se devemos escolher entre a razão e a fé. Mas em que está nossa fé? No milagre ou no Deus do Milagre? Se estiver no milagre nossa fé será sempre uma aposta na impossibilidade. Mas se estiver no Deus do Milagre, nossa Fé estará embasada em Cristo. E em Cristo é o viver e n’Ele, o morrer, é ganho. Ora, onde está a tal fé louca nisso? A Fé não está nesta vida, mas na promessa da Eternidade. Loucos são aqueles que ensinam a fé para as coisas nesta vida! É o que nos ensina Jesus, ao descrever aqueles típicos testemunhos de “fé’, que terminariam muito bem com o logo: “EU SOU A UNIVERSAL”:

“Certo homem rico possuía uma propriedade fértil que dava boas colheitas. Assim os seus celeiros ficaram a transbordar, e não podia guardar tudo lá dentro. O homem pôs-se a pensar no problema. Por fim, exclamou: 'Já sei, vou deitar abaixo os celeiros e construir outros maiores. Assim terei espaço suficiente. Depois direi comigo mesmo: 'Amigo, armazenaste o bastante para os anos futuros. Agora, repousa e come, bebe e diverte-te.'Mas Deus disse-lhe: 'Louco! Esta noite vais morrer; e para quem fica tudo isso?'Sim, louco é quem acumula riquezas na Terra mas não é rico em relação a Deus.
             Laodiceia é a igreja de hoje. Uma igreja que nos lábios fala que quer o Reino, mas que quando sua riqueza terrena é ameaçada ela briga com unhas e dentes, pois na verdade é onde está seu coração.
Qual Fé Ele achará? A fé na prosperidade? Na saúde? Na bonança? No milagre? Isto não é fé. É comodismo. É querer Deus pelo que Ele tem e pode dar, não pelo que Ele é. Laodiceia era rica, ms miserável:

"E se a nossa esperança em Cristo é unicamente para esta vida, nós somos as pessoas mais miseráveis no mundo."

             A Fé, como crença cristã, é perfeitamente racional, não porque temos que lidar com possibilidades ou impossibilidades, questões naturais desta vida, mas porque vemos, no porvir, aquilo que esperamos hoje, isto é: Ele, Jesus!
             Jesus crucificado e ressuscitado é a base de nossa fé. A nossa fé é loucura e escândalo... para os que perecem. Mas para nós é loucura também? É o impossível? Não, todavia é o PODER DE DEUS! Se nos falta poder, aí é outra história, não é um problema de Fé, portanto, mas da igreja se colocar na posição de receber.
             Para os discípulos, me parece, de verdade, com toda a humildade, que era muito mais uma questão de poder que de impossibilidade.

“Quando o mendigo viu que Pedro e João iam entrar, pediu-lhes dinheiro. Pedro e João se voltaram para ele. “Olhe para nós! ”, disse Pedro. O homem fixou o olhar neles, esperando receber alguma esmola. Pedro, no entanto, disse: “Não tenho prata nem ouro, mas lhe dou o que tenho. Em nome de Jesus Cristo, o nazareno, levante-se e ande! ”.

             Observando Pedro, não me parece um louco sem razão. Mas alguém que encontrou razão na fé. Ou ainda, alguém que tinha tanto o fundamento quanto a convicção.
             A Fé não é a negação da realidade, tampouco fechar os olhos para a verdade, mas a fé mostra a realidade daquilo que esperamos e quanto as questões que não podemos ver, ela nos dá prova, convicção e experimento: não é teórica, nem ilusória.
             Ora, Adão tinha isso. Mas perdeu. Nossa natureza adâmica perdeu isso. Mas Cristo restaurou na Cruz, aquilo que perdemos no Éden. A fé transforma a realidade adâmica na realidade cristã.
             As coisas que nós hoje achamos impossível, para Adão, antes da queda, era apenas uma questão de poder.

a)       Possível: "praticável"
b)      Poder: "Ser capaz de"


             Cristo restaurou a nossa capacidade de praticar os dons e operar os frutos, e Pedro sabia disto.

             Mas isso tudo tem um propósito: Ele ser glorificado, a Igreja ser edificada, sermos salvos e salvar a outros.

             Esta fé em benefício próprio, me perdoem a franqueza, está longe de ser bíblica.

             É a reposta de Deus para o Paulo que tinha os 9 dons: "tire de mim este espinho na carne."

" MINHA GRAÇA É TUDO DE QUE VOCÊ PRECISA. MEU PODER OPERA MELHOR NA FRAQUEZA”, respondeu-lhe o Cristo.

             O Apóstolo Paulo morreu em Roma. Seu triunfo não foi aqui. O Nome de Cristo não lhe foi sorte, pelo contrário, lhe trouxe muito sofrimento. Aquela fotografia era de um fracassado.

             Todavia, foi apenas um capítulo na História Eterna. Olhando no panorama, neste horizonte infinito, Paulo, sob a lente da Fé, aí nós vemos quem ele de fato foi: um Herói da Fé.
“Quanto a mim, minha vida já foi derramada como oferta para Deus. O tempo de minha morte se aproxima. Lutei o bom combate, terminei a corrida e permaneci fiel. Agora o prêmio me espera, a coroa de justiça que o Senhor, o justo Juiz, me dará no dia de sua volta. E o prêmio não será só para mim, mas para todos que, com grande expectativa, aguardam a sua vinda.” 2 Timóteo 4:6-8

SOLI DEO GLORIA




quarta-feira, maio 27, 2020

DICIONÁRIO PARA NEÓFITOS - PARTE I

PARTE I


Autoridade não é opressão, mas é influência. Toda a influência deve ser questionada. Qual a fonte da influência? Apenas as Escrituras? Foi seguindo o posto de quem estava numa hierarquia que os anjos pecaram. Questione toda a autoridade.

Contestação não é rebelião. Contestar é trazer para testemunhar, é chamar para a responsabilidade, é cobrar fundamentos em atos e falas. Rebelião é fazer guerra contra cargos e instituições. Dentre colocar uma contestação e fazer uma guerra há um abismo de diferença.

Hierarquia sem colocar o próximo como superior a si mesmo é tirania. A humildade horizontaliza hierarquias, mas a vaidade eleva a distância vertical entre o líder e seu liderado.

Lealdade é uma via de mão dupla. A lealdade se insere numa concepção de processo sob a ótica de uma estrutura cooperativa. A lealdade impõe o dever da verdade. “Lealdade” que apenas exige não é lealdade, mas situacionismo.

Liberdade: Jesus morreu na Cruz para tirar seus pecados, não seus neurônios. Ele te fez livre, inclusive para pensar. Pegar o cérebro do coleguinha para pensar a partir dele é se fazer escravo das impressões alheias. Aprenda com o próximo, mas não o faça vicário de ti. A Liberdade não está nas ruas, em casa, em prisões ou na igreja. Existe gente livre nas prisões e gente escrava nas ruas. Liberdade é uma questão de consciência.

Obediência não é alienação. Na obediência você ouve com atenção e, em concordando, acata. Na alienação você transmite o seu direito de arbítrio e se submete sem questionar.

Respeito se deve as pessoas, não necessariamente as suas ideias. Principalmente se a questão for extrabíblica e imprescindivelmente se for antibiblica.

Submissão não é sequestro da individualidade. Na submissão o outro adota a sua missão. No servilismo você impõe suas condições.

Ungido, com "U" maiúsculo, foi só Jesus. O restante foi ungido com “u” pequeno mesmo, por mais que isso possa doer em seus egos.

Vocação: Genética não salva. Arranjo marital não vocaciona. Contribuições não capacita. Deus não chama família, mas indivíduos. Deus não escolhe o peso de nossas ofertas, mas pesa a oferta de nossas escolhas. Os filhos de Arão, Eli e Davi não tiveram o mesmo caráter de seus pais. Deus tem filhos, não netos. A alma que pecar, esta morrerá.


Ah, como ficou urgente resgatar, no dicionário conforme o Evangelho, os verbetes para aplicá-lo e não ficar a repetir o que convém.

P.S. Parte II em construção.

WILLIAM FREZZE

SOLI DEO GLORIA





terça-feira, abril 07, 2020

A BELEZA E A PERFEIÇÃO


A beleza e a perfeição não são a mesma coisa, embora muitas vezes sejam confundidas no mesmo olhar.

A perfeição remete ao completo, ao acabado, ao que parece ter chegado ao seu termo. A beleza, porém, não depende de encerramento: ela acontece. Não precisa estar concluída para ser reconhecida; basta que se revele no instante certo.

A perfeição exige medida, cálculo, correção. Cobra a satisfação das exigências, a obediência ao padrão, a eliminação do desvio. A beleza, ao contrário, não pede licença ao critério. Quando aparece, impõe-se pela presença.

A perfeição é construída, retocada, sacrificada no altar da forma. A beleza pode nascer sem projeto, sem cálculo, sem explicação suficiente. Não é ausência de ordem; é uma ordem mais profunda, menos servil, menos domesticada.

A beleza convive com a rejeição, porque nem todo olhar está preparado para reconhecê-la. A perfeição, por sua vez, comporta-se como se pudesse exigir unanimidade, como se o mundo inteiro devesse concordar diante daquilo que não falha.

A perfeição procura o encaixe. Quer caber no molde, satisfazer a expectativa, confirmar o que já se esperava dela. A beleza, quando não se encaixa, não se diminui: destaca-se. E muitas vezes é justamente por não caber que permanece.

A perfeição fascina pela promessa de um mundo linear, limpo, simétrico, sem acidente. A beleza apaixona pela organização inesperada que nasce em meio ao caos. Ela não elimina a tensão; transforma a tensão em forma.

A beleza admite contraste, irregularidade, contraponto. Pode ser discutida, negada, incompreendida. A perfeição, quando se transforma em ideal, tende à rigidez. Quer fixar o que a vida insiste em mover.

A beleza resiste à configuração total. Sempre sobra nela alguma coisa que escapa. A perfeição, sob o pretexto da forma, frequentemente se submete ao padrão. Por isso pode ser admirável, mas raramente é surpreendente.

A beleza oferece novidade, carrega originalidade e desestabiliza a percepção. A perfeição, quando idolatrada, repete modelos, transcreve amostras e acomoda o olhar. Uma confirma o conhecido; a outra inaugura possibilidades.

A perfeição pode ser um déjà-vu coletivo: todos a reconhecem porque já a viram antes. A beleza verdadeira, porém, nem sempre é reconhecida de imediato. Às vezes chega antes do seu tempo, desloca conceitos, perturba gostos e só depois encontra nome.

A perfeição é pública, iluminada, quase sempre domesticada pelo senso comum. A beleza, por vezes, nasce discreta, incompreendida, invisível aos olhos apressados. Não porque seja menor, mas porque exige um olhar menos obediente.

A perfeição se enrijece na tentativa de resistir ao tempo. A beleza aceita sua delicadeza. Talvez por isso seja tão forte: porque não nega a própria finitude. O que é perfeito pode permanecer intacto; o que é belo permanece vivo na memória.

A perfeição mora nos detalhes. A beleza respira no todo.

Cuide da beleza, mas não cultue a perfeição.

Porque há uma beleza que não pede autorização ao espelho, não negocia com a régua, não se ajoelha diante da vitrine. Há uma beleza que chega sem pedir desculpas por suas curvas, seus ângulos, seus excessos, suas faltas, suas marcas, suas assimetrias e seus mistérios.

O manequim imortal pode até ser perfeito: imóvel, liso, intacto, obediente. Mas a mulher é outra coisa. Ela atravessa o tempo com história no corpo, mundo nos olhos, gesto na alma e presença onde nenhum molde alcança.

E quando ela não cabe na medida inventada para diminuí-la, não é ela que sobra. É a medida que se revela pequena.

Pois a beleza mais alta talvez seja esta: não a que se submete para ser aceita, mas a que permanece inteira mesmo quando o mundo ainda não aprendeu a reconhecê-la.

















quarta-feira, março 11, 2020

O AMOR ENTRE O HOMEM E A MULHER: O SUPORTE E O ABRAÇO! — CANTARES 8:3

Há um verso no Cântico dos Cânticos que, de tão simples, quase passa despercebido. Quase.


“A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abrace.”


A amada não pede poder. Não pede riqueza. Não pede palavras. Pede uma postura. Pede uma disposição do corpo que é, antes de tudo, uma disposição da alma.

E nessa geometria silenciosa — uma mão que sustenta, outra que envolve — está contida, talvez, toda a gramática do amor conjugal.

A mão esquerda sob a cabeça não é gesto de posse. É gesto de suporte. Não prende: ampara. Não dirige o pensamento do outro, mas lhe oferece fundamento. É a presença que não invade, mas não falta. O amor que sustenta a mente do amado não é aquele que pensa por ele, mas aquele que, ao estar ali, permite que o outro pense melhor, ouse mais, não tema cair, porque sabe que há firmeza por baixo.

Amar assim é ser chão. É ser a linha que liga o voo à terra sem trair nenhum dos dois.

A mão direita que abraça é outra coisa — e é a mesma. Ela não sustenta a cabeça: recolhe a pessoa. Não é a mão do argumento: é a mão da presença. Não explica: envolve. Não ordena: aquece. Há nela uma linguagem que a fala não alcança. O abraço diz o que a palavra já não consegue conter — e, às vezes, diz melhor.

Porque há momentos em que o outro não precisa ser compreendido. Precisa ser acolhido. Não em seu pensamento, mas em sua pessoa. Não no que diz, mas no que é — com toda a sua contradição, sua fadiga, seu excesso, sua falta.

Amar assim é ser calor. É ser chama que não apenas ilumina, mas aquece.

A amada, nesse verso de rara precisão poética, não pede duas coisas. Pede uma só: que o amado a ame por inteiro. Que lhe ofereça discernimento e ternura, estrutura e afeto, chão e abraço — simultaneamente, sem hierarquia entre um e outro.

Porque o amor conjugal, em seu estado mais alto, não escolhe entre sustentar e envolver. Faz os dois. Ao mesmo tempo. Com as duas mãos.

Há nisso um paradoxo que o amor não teme: a mão que sustenta a cabeça precisa ser firme o bastante para não ceder e suave o bastante para não ferir. A mão que abraça precisa ser próxima o bastante para aquecer e aberta o bastante para não aprisionar.


Sustentar sem esmagar.

Abraçar sem absorver.

Estar junto sem abolir a alteridade.


      O amor é a maior força que existe no universo! Ele completa os diferentes, aperfeiçoa as percepções e uni os lados opostos.

É isso o que a amada pede.

É isso o que o amor, em seu estado mais alto, é capaz de dar.


"E sobretudo deixem que toda a vossa vida seja dirigida pelo amor, que é a força capaz de nos unir no caminho da perfeição". — Colossenses 3:14


O amor não completa os diferentes porque os iguala, mas porque os reconhece e, reconhecendo, os honra. Não apaga o que cada um é: revela o que os dois, juntos, podem ser.


Uma mão embaixo. 

A outra, em volta.

O suporte e o abraço.