A beleza e a perfeição não são a mesma coisa, embora muitas vezes sejam confundidas no mesmo olhar.
A perfeição remete ao completo, ao acabado, ao que parece ter chegado ao seu termo. A beleza, porém, não depende de encerramento: ela acontece. Não precisa estar concluída para ser reconhecida; basta que se revele no instante certo.
A perfeição exige medida, cálculo, correção. Cobra a satisfação das exigências, a obediência ao padrão, a eliminação do desvio. A beleza, ao contrário, não pede licença ao critério. Quando aparece, impõe-se pela presença.
A perfeição é construída, retocada, sacrificada no altar da forma. A beleza pode nascer sem projeto, sem cálculo, sem explicação suficiente. Não é ausência de ordem; é uma ordem mais profunda, menos servil, menos domesticada.
A beleza convive com a rejeição, porque nem todo olhar está preparado para reconhecê-la. A perfeição, por sua vez, comporta-se como se pudesse exigir unanimidade, como se o mundo inteiro devesse concordar diante daquilo que não falha.
A perfeição procura o encaixe. Quer caber no molde, satisfazer a expectativa, confirmar o que já se esperava dela. A beleza, quando não se encaixa, não se diminui: destaca-se. E muitas vezes é justamente por não caber que permanece.
A perfeição fascina pela promessa de um mundo linear, limpo, simétrico, sem acidente. A beleza apaixona pela organização inesperada que nasce em meio ao caos. Ela não elimina a tensão; transforma a tensão em forma.
A beleza admite contraste, irregularidade, contraponto. Pode ser discutida, negada, incompreendida. A perfeição, quando se transforma em ideal, tende à rigidez. Quer fixar o que a vida insiste em mover.
A beleza resiste à configuração total. Sempre sobra nela alguma coisa que escapa. A perfeição, sob o pretexto da forma, frequentemente se submete ao padrão. Por isso pode ser admirável, mas raramente é surpreendente.
A beleza oferece novidade, carrega originalidade e desestabiliza a percepção. A perfeição, quando idolatrada, repete modelos, transcreve amostras e acomoda o olhar. Uma confirma o conhecido; a outra inaugura possibilidades.
A perfeição pode ser um déjà-vu coletivo: todos a reconhecem porque já a viram antes. A beleza verdadeira, porém, nem sempre é reconhecida de imediato. Às vezes chega antes do seu tempo, desloca conceitos, perturba gostos e só depois encontra nome.
A perfeição é pública, iluminada, quase sempre domesticada pelo senso comum. A beleza, por vezes, nasce discreta, incompreendida, invisível aos olhos apressados. Não porque seja menor, mas porque exige um olhar menos obediente.
A perfeição se enrijece na tentativa de resistir ao tempo. A beleza aceita sua delicadeza. Talvez por isso seja tão forte: porque não nega a própria finitude. O que é perfeito pode permanecer intacto; o que é belo permanece vivo na memória.
A perfeição mora nos detalhes. A beleza respira no todo.
Cuide da beleza, mas não cultue a perfeição.
Porque há uma beleza que não pede autorização ao espelho, não negocia com a régua, não se ajoelha diante da vitrine. Há uma beleza que chega sem pedir desculpas por suas curvas, seus ângulos, seus excessos, suas faltas, suas marcas, suas assimetrias e seus mistérios.
O manequim imortal pode até ser perfeito: imóvel, liso, intacto, obediente. Mas a mulher é outra coisa. Ela atravessa o tempo com história no corpo, mundo nos olhos, gesto na alma e presença onde nenhum molde alcança.
E quando ela não cabe na medida inventada para diminuí-la, não é ela que sobra. É a medida que se revela pequena.
Pois a beleza mais alta talvez seja esta: não a que se submete para ser aceita, mas a que permanece inteira mesmo quando o mundo ainda não aprendeu a reconhecê-la.

Uau, que lindo! Caramba, uma das coisas mais bonitas que já li sobre. Escreva mais, sempre. Você sabe colocar muito bem as palavras.
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