Há um verso no Cântico dos Cânticos que, de tão simples, quase passa despercebido. Quase.
“A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abrace.”
A amada não pede poder. Não pede riqueza. Não pede palavras. Pede uma postura. Pede uma disposição do corpo que é, antes de tudo, uma disposição da alma.
E nessa geometria silenciosa — uma mão que sustenta, outra que envolve — está contida, talvez, toda a gramática do amor conjugal.
A mão esquerda sob a cabeça não é gesto de posse. É gesto de suporte. Não prende: ampara. Não dirige o pensamento do outro, mas lhe oferece fundamento. É a presença que não invade, mas não falta. O amor que sustenta a mente do amado não é aquele que pensa por ele, mas aquele que, ao estar ali, permite que o outro pense melhor, ouse mais, não tema cair, porque sabe que há firmeza por baixo.
Amar assim é ser chão. É ser a linha que liga o voo à terra sem trair nenhum dos dois.
A mão direita que abraça é outra coisa — e é a mesma. Ela não sustenta a cabeça: recolhe a pessoa. Não é a mão do argumento: é a mão da presença. Não explica: envolve. Não ordena: aquece. Há nela uma linguagem que a fala não alcança. O abraço diz o que a palavra já não consegue conter — e, às vezes, diz melhor.
Porque há momentos em que o outro não precisa ser compreendido. Precisa ser acolhido. Não em seu pensamento, mas em sua pessoa. Não no que diz, mas no que é — com toda a sua contradição, sua fadiga, seu excesso, sua falta.
Amar assim é ser calor. É ser chama que não apenas ilumina, mas aquece.
A amada, nesse verso de rara precisão poética, não pede duas coisas. Pede uma só: que o amado a ame por inteiro. Que lhe ofereça discernimento e ternura, estrutura e afeto, chão e abraço — simultaneamente, sem hierarquia entre um e outro.
Porque o amor conjugal, em seu estado mais alto, não escolhe entre sustentar e envolver. Faz os dois. Ao mesmo tempo. Com as duas mãos.
Há nisso um paradoxo que o amor não teme: a mão que sustenta a cabeça precisa ser firme o bastante para não ceder e suave o bastante para não ferir. A mão que abraça precisa ser próxima o bastante para aquecer e aberta o bastante para não aprisionar.
Sustentar sem esmagar.
Abraçar sem absorver.
Estar junto sem abolir a alteridade.
O amor é a maior força que existe no universo! Ele completa os diferentes, aperfeiçoa as percepções e uni os lados opostos.
É isso o que a amada pede.
É isso o que o amor, em seu estado mais alto, é capaz de dar.
"E sobretudo deixem que toda a vossa vida seja dirigida pelo amor, que é a força capaz de nos unir no caminho da perfeição". — Colossenses 3:14
O amor não completa os diferentes porque os iguala, mas porque os reconhece e, reconhecendo, os honra. Não apaga o que cada um é: revela o que os dois, juntos, podem ser.
Uma mão embaixo.
A outra, em volta.
O suporte e o abraço.

NOSSA !!! 😱
ResponderExcluirTexto incrível, parabéns 👏🏻
Palavras, sentimentos, emoções bem colocadas 💙
Serio. Nunca vi uma abordagem tão inteligente assum desse vercículo,mesmo porque a maioria interpretam cantares de uma forma herotica,têm muita dificuldade de criar outras abordagens e quando o fazem é sempre relacionado ao relacionamento Cristo e a Igreja.
ResponderExcluirSou supeita a falar,amo tudo que vc escreve e com este texto não foi diferente.
Abordagem que me surpreendeu