Devorado
Pela tua ausência que me corrói devagar,
como ácido lento dissolvendo ossos,
vento implacável varrendo terras desertas e frias.
Tu me amavas com fogo de estrela moribunda,
que direito tinhas de partir assim,
de me abandonar ao vazio,
de rasgar esta carne exposta ao gelo que devora tudo?
O mundo se reduziu a escombros,
a uma terrível coleção de vestígios cruéis
que provam que um dia foste real,
palpável, minha,
e agora te perdi para sempre,
eternamente perdida em mim,
rasgos na carne viva que nunca cicatriza.
Atormentado
Pela fragilidade desta separação que nos torna pó,
vulneráveis ao abismo que engole sem piedade.
Mas quando unidos éramos chama selvagem,
invencíveis no escuro,
nus desafiando todas as trevas,
todos os demônios e legiões,
todas as sombras do inferno sem um pingo de medo.
Eu daria a minha vida por ti, inteira, sem hesitar,
mas descobri que tu não ficarias de luto por mim,
não derramarias uma lágrima sequer.
E ainda assim quero que nada mais nos separe,
que nem o fim ouse tocar-nos,
porque sem ti eu não existo,
sou só eco perdido,
fantasma que vagueia em sua própria pele,
sombra que arrasta correntes no silêncio.
Absorto
Pela memória viva do teu corpo se entregando devagar,
coxas que se abrem como convite molhado e quente,
pulsando para me receber, para me prender.
Entro primeiro lento, saboreando cada centímetro,
cada onda de calor que me envolve,
depois fundo, sem parar, sem piedade,
sentindo-te apertar em volta de mim,
tremer inteira enquanto o suspiro derrotado,
o gemido rouco
sobe da tua garganta profunda,
quando te toco bem no centro secreto,
onde tudo se dissolve em fogo líquido,
em ondas que nos afogam juntos,
que nos matam e ressuscitam no mesmo instante.
Consumido
Pelo peso perfeito dos teus seios na minha boca faminta,
mamilos rijos endurecendo entre lábios e dentes leves,
língua que circula e suga, que marca território.
Tu arqueias as costas como arco tenso,
cravas unhas fundo na minha carne,
sussurras baixo, quase sem voz,
"mais", "mais forte",
e o suor escorre entre nós, misturando cheiros,
o teu invadindo tudo,
o gosto salgado da tua pele,
o gosto doce da tua língua,
da tua umidade que escorre pelas coxas trêmulas,
me deixando completamente louco,
perdido em ti, neste labirinto de pele e gemido.
Febril
Pela visão que me assombra nas madrugadas insones,
teu corpo nu se movendo sobre o meu,
cabelos caindo como cortina ao redor do nosso mundo privado,
teus lábios entreabertos sussurrando obscenidades sagradas,
me dizendo exatamente onde tocar, como tocar.
Imagino tua boca descendo pelo meu peito,
deixando rastro de saliva e fogo,
tua língua desenhando círculos cada vez mais baixos,
até me provar inteiro, me engolir profundo,
enquanto teus olhos permanecem fixos nos meus,
desafiadores, selvagens, famintos.
Sonho com minhas mãos agarrando tua cintura,
te virando de bruços,
beijando cada vértebra da tua coluna,
mordendo suavemente a curva dos teus quadris,
antes de te puxar contra mim,
te penetrar de novo,
mais devagar desta vez,
porém profundo.
prolongando o tormento,
fazendo-te implorar,
até que finalmente cedes,
te contorces,
geme meu nome como prece blasfema,
e nos despedaçamos juntos
em mil fragmentos luminosos
que se recompõem apenas para se despedaçarem de novo.
Enraizado
Porque este amor não é folha que o vento arranca,
nem fogo que o tempo sufoca,
é raiz cravada fundo na terra escura da alma.
Eu te amo com cada fibra rasgada do meu ser,
com cada pedaço que sangra e ainda pulsa,
e em cem anos amarei ainda mais,
tanto, tanto,
que tu te espalharás em mim como sombra viva,
não como prazer que passa,
mas como a minha própria essência,
como o ar que respiro sem perceber.
Sem ti sou apenas cinza fria que o tempo varre,
ruína que ainda respira mas não vive,
mas nesta chama devoradora que nos funde
além do tempo, além da morte, além de tudo,
nunca, nunca nos separaremos de verdade.
— Eu me esvazio em ti —
— Você é preenchida por mim —
Presente absoluto,
atravessando tua falta, atravessando teu silêncio,
somente tu, nada além de ti.


