sexta-feira, janeiro 16, 2026

Obsessão

Devorado

Pela tua ausência que me corrói devagar,

como ácido lento dissolvendo ossos,

vento implacável varrendo terras desertas e frias.

Tu me amavas com fogo de estrela moribunda,

que direito tinhas de partir assim,

de me abandonar ao vazio,

de rasgar esta carne exposta ao gelo que devora tudo?

O mundo se reduziu a escombros,

a uma terrível coleção de vestígios cruéis

que provam que um dia foste real,

palpável, minha,

e agora te perdi para sempre,

eternamente perdida em mim,

rasgos na carne viva que nunca cicatriza.


Atormentado

Pela fragilidade desta separação que nos torna pó,

vulneráveis ao abismo que engole sem piedade.

Mas quando unidos éramos chama selvagem,

invencíveis no escuro,

nus desafiando todas as trevas,

todos os demônios e legiões,

todas as sombras do inferno sem um pingo de medo.

Eu daria a minha vida por ti, inteira, sem hesitar,

mas descobri que tu não ficarias de luto por mim,

não derramarias uma lágrima sequer.

E ainda assim quero que nada mais nos separe,

que nem o fim ouse tocar-nos,

porque sem ti eu não existo,

sou só eco perdido,

fantasma que vagueia em sua própria pele,

sombra que arrasta correntes no silêncio.


Absorto

Pela memória viva do teu corpo se entregando devagar,

coxas que se abrem como convite molhado e quente,

pulsando para me receber, para me prender.

Entro primeiro lento, saboreando cada centímetro,

cada onda de calor que me envolve,

depois fundo, sem parar, sem piedade,

sentindo-te apertar em volta de mim,

tremer inteira enquanto o suspiro derrotado,

o gemido rouco

sobe da tua garganta profunda,

quando te toco bem no centro secreto,

onde tudo se dissolve em fogo líquido,

em ondas que nos afogam juntos,

que nos matam e ressuscitam no mesmo instante.


Consumido

Pelo peso perfeito dos teus seios na minha boca faminta,

mamilos rijos endurecendo entre lábios e dentes leves,

língua que circula e suga, que marca território.

Tu arqueias as costas como arco tenso,

cravas unhas fundo na minha carne,

sussurras baixo, quase sem voz,

"mais", "mais forte",

e o suor escorre entre nós, misturando cheiros,

o teu invadindo tudo,

o gosto salgado da tua pele,

o gosto doce da tua língua,

da tua umidade que escorre pelas coxas trêmulas,

me deixando completamente louco,

perdido em ti, neste labirinto de pele e gemido.


Febril

Pela visão que me assombra nas madrugadas insones,

teu corpo nu se movendo sobre o meu,

cabelos caindo como cortina ao redor do nosso mundo privado,

teus lábios entreabertos sussurrando obscenidades sagradas,

me dizendo exatamente onde tocar, como tocar.

Imagino tua boca descendo pelo meu peito,

deixando rastro de saliva e fogo,

tua língua desenhando círculos cada vez mais baixos,

até me provar inteiro, me engolir profundo,

enquanto teus olhos permanecem fixos nos meus,

desafiadores, selvagens, famintos.

Sonho com minhas mãos agarrando tua cintura,

te virando de bruços,

beijando cada vértebra da tua coluna,

mordendo suavemente a curva dos teus quadris,

antes de te puxar contra mim,

te penetrar de novo,

mais devagar desta vez,

porém profundo.

prolongando o tormento,

fazendo-te implorar,

até que finalmente cedes,

te contorces,

geme meu nome como prece blasfema,

e nos despedaçamos juntos

em mil fragmentos luminosos

que se recompõem apenas para se despedaçarem de novo.


Enraizado

Porque este amor não é folha que o vento arranca,

nem fogo que o tempo sufoca,

é raiz cravada fundo na terra escura da alma.

Eu te amo com cada fibra rasgada do meu ser,

com cada pedaço que sangra e ainda pulsa,

e em cem anos amarei ainda mais,

tanto, tanto,

que tu te espalharás em mim como sombra viva,

não como prazer que passa,

mas como a minha própria essência,

como o ar que respiro sem perceber.

Sem ti sou apenas cinza fria que o tempo varre,

ruína que ainda respira mas não vive,

mas nesta chama devoradora que nos funde

além do tempo, além da morte, além de tudo,

nunca, nunca nos separaremos de verdade.

— Eu me esvazio em ti —

— Você é preenchida por mim —

Presente absoluto,

atravessando tua falta, atravessando teu silêncio,

somente tu, nada além de ti.





quarta-feira, janeiro 07, 2026

o que de mais meu a vida me deixou

Não te amo como se ama o sol do meio-dia,

que fere os olhos e, no horizonte, se rende ao crepúsculo,

ao lusco-fusco em que o ouro vira cinza

e a luz aprende, mansamente, a despedida.


Te amo como chama acesa na noite fria,

pão sobre a mesa, abrigo no rompante:

amor que, quando o escuro avança, guia,

não se apaga,  permanece vigilante.


Te amo com a calma de quem se perdeu de si

e, de repente, se encontra no teu nome;

alma pousada, como ave que retorna,

e, no teu peito, enfim, se consome.


Se um dia me faltar o fôlego, a música — e o mundo, por inteiro,

que a última palavra seja o teu chamado;

e o último clarão, no olhar já cansado,

seja tua face , viva e indelével, no meu escuro derradeiro.


Tu és o instante em que a eternidade desvia o olhar

e sorri, distraída, diante de nós dois;

és o verso oculto onde o corpo aprende a calar,

a pausa reticente que faz a vida caber depois.


Enquanto o mundo corre, em pressa, sem promessa,

tu ficas, leve e firme, como quem sabe e diz:

brasa que insiste, discreta, na cinza espessa,

chama que o vento afronta, e não apaga a cicatriz.


Porque és, minha, o que de mais meu a vida me deixou;
e eu, inteiro, sem metade, sou tudo o que em ti se encontrou.




segunda-feira, setembro 22, 2025

David Gilmour — Live at the Circus Maximus, Rome | RESENHA

Testamento em Roma: A Arquitetura Sonora de David Gilmour no Circus Maximus





Neste domingo, 21/09, sentei exatamente no miolo do IMAX, o sweet spot, e a tecnologia Dolby Atmos tratou de transformar um concerto em arquitetura sensorial. O filme abre com David Gilmour lembrando ao mundo, com ironia doce e precisão absoluta, que é “um fucking legend”. A partir daí, tudo converge: a imagem monumental, a projeção que não estoura highlights e preserva grão e textura e, sobretudo, um desenho de som tridimensional que dá altura real às coisas. Não é só estéreo largo, há planos, profundidade de campo acústica, objetos sonoros escalando o teto, delays que orbitam, reverbs que pairam como véus sobre a plateia. Senti o ataque da palheta e, um segundo depois, a cauda do plate reverb suspensa acima de mim; ouvi harmônicos viajando pelos canais de altura e retornando ao palco como se fossem matéria palpável. Foram 22 faixas, duas horas e meia de música que respira, cresce e, em vários momentos, simplesmente corta as pernas no melhor sentido.

A narrativa é construída com astúcia. “5 A.M.”, quase vinheta de timbre e intenção, prepara a paleta de cores do set. “Black Cat” e “Luck and Strange” fixam o clima meditativo do álbum novo, um disco nascido da reflexão pandêmica sobre a finitude e a fragilidade da vida. Então, a ponte se abre para o cânone: “Breathe (In the Air)” e “Time” entram com voicings mais arejados, a bateria deixando o ar circular e os relógios texturizados numa espacialidade que não grita, envolve. “Fat Old Sun” vem pastoral, como se fosse um campo aberto filmado ao amanhecer. “Marooned”, raridade no palco, ergue uma catedral elétrica: sustain quase vocal, feedback controlado na borda do acoplamento, pads que expandem o campo harmônico sem confundir o grave. “Wish You Were Here” volta a pele para o osso, violões brilhando na faixa dos 6–8 kHz, voz na cara e um coro espontâneo da sala que o mix respeita como textura, não como ruído.

O miolo do concerto equilibra introspecção e catarse com precisão cirúrgica. “Vita Brevis” funciona como interlúdio respirado. “Between Two Points”, com Romany Gilmour, pousa no meio do IMAX como uma câmara de vidro: voz límpida em tessitura média, harpa tratada com leve compressão paralela, teclas que riscam arabescos sem atropelar o silêncio. “High Hopes” reintroduz o sino como personagem rítmico, o pedal steel como lâmina de luz. “Sorrow” chega como muralha sônica, fuzz empurrando válvulas até o limite, mas com o médio limpo o bastante para a muralha ter desenho, não só massa. “The Piper’s Call” amarra a gramática nova de Luck and Strange ao fraseado clássico de Gilmour, grooves binários com bordados melódicos no teclado, a guitarra falando com a parcimônia de quem sabe que um bend milimétrico vale mais do que trinta notas velocíssimas.

E então acontece o momento que eu não esperava: “A Great Day for Freedom”: o luto das promessas não cumpridas do pós-muro, a ressaca de uma esperança que não virou plenitude. No palco, duas guitarras fazem contracanto de manual, às vezes em paralelismo oblíquo, e quando convergem viram segunda voz uma da outra. É uma conversa entre iguais, uma simbiose técnica e afetiva que me fez chorar. Uma das coisas mais lindas que já ouvi. Ali, o virtuosismo não está em correr; está em sustentar a nota até que o sentido apareça. É elegia, é testamento, é aquele instante em que a música deixa de ser performance e se torna rito. E não é difícil ouvir, por baixo de tudo, a ideia de despedida, um artista de 79 anos escrevendo com som aquilo que as palavras não dão conta.

Daí em diante, o arco dramatúrgico escala. “In Any Tongue” ressurge como lamento poliglota contra a barbárie, a montagem de vozes meticulosamente distribuída no espaço. “The Great Gig in the Sky” abandona a catarse solitária e vira tapeçaria coral, Romany e mais três cantoras costurando timbres distintos até um clímax harmônico de levantar a nuca da poltrona. “A Boat Lies Waiting”, o meu ouvido sempre volta ao fôlego que esta música pede, vem com a delicadeza de barcarola para piano e respiros. “Coming Back to Life” traz o agradecimento explícito a Polly Samson, gesto que recoloca a autoria em seu lugar, parceria criativa injustamente atacada por torcida organizada de saudosistas de Roger Waters, mas que aqui aparece com nitidez e gratidão. E as novas, “Dark and Velvet Nights”, “Sings” e “Scattered”, mostram o truque difícil, dialogar com a memória sem repetir a fórmula, usando modos dórico e eólio, cadências suspensas e voicings abertos que carregam DNA floydiano sem virar pastiche.

O final é liturgia. “Comfortably Numb” encerra com solo cantabile, delays em cascata e um teto de luz volumétrica em 3D projetado de fora do palco, desenhando geometrias sobre a plateia, uma extensão ótica do que o Atmos faz no domínio sonoro. Senti a guitarra atravessar o espaço físico antes de chegar ao peito, como se a nota curvasse o ar. Saí do cinema com a certeza de que tanto o álbum quanto o show não apenas pensam a morte, encenam um adeus possível. Luck and Strange nasce de um período em que todos fomos obrigados a encarar finitude e fragilidade, o filme capta esse estado com honestidade e grandeza. A sensação não é de fim amargo, mas de passagem, uma carta final escrita em linguagem musical, capaz de revisitar o passado, agradecer o presente e, quem sabe, acenar para um silêncio que também é forma de beleza.

E porque sou fã desde sempre, discografia completa, shows oficiais e até bootlegs obscuros, preciso registrar a medida da surpresa. Já vi P•U•L•S•E, Remember That Night, Live in Gdańsk, Pompeii recente, e ainda assim a noite no Circo Máximo filmada para IMAX me pareceu a síntese mais poderosa de tudo o que Gilmour é no palco. Não por ser maior, mas por ser mais íntegra, banda respirando junto, mix que respeita o silêncio como parte da música, fotografia que abraça o crepúsculo romano sem flertar com o kitsch. E uma curadoria que costura décadas sem pedir desculpas, como convém a quem já não precisa provar nada.

No plano técnico, há escolhas que dizem muito. Headroom generoso, transientes preservados, grave firme sem inflar. Guitarras que ocupam o médio-agudo sem agredir. Teclados que ampliam a largura sem apagar o corpo do baixo. Bateria com pratos de cauda controlada, abrindo só quando o clímax pede. O Atmos serve à música, não o contrário. Quando as alturas entram, entram para que a emoção ganhe contorno, não para mostrar efeito. É a velha lição de produção: tirar o que sobra até que o essencial brilhe. E o essencial, aqui, é uma assinatura melódica reconhecível em meio compasso, aquela combinação de sustain, micro-bends temperados e vibrato redondo que só ele tem.

Se havia alguma dúvida sobre a vitalidade de Gilmour aos quase 80, o filme a dissipa. Há ternura na economia de gestos, há autoridade na economia de notas. Há grandeza no reconhecimento público a Polly, há generosidade na entrega de palco à Romany, há coragem em dizer, com um sorriso e um palavrão bem colocado, que a lenda está viva e consciente do próprio tamanho. E, ainda assim, há humildade suficiente para que a música fale mais alto que o mito. Saí do IMAX com olhos marejados e uma certeza difícil de explicar: poucas vezes um artista me ofereceu um adeus tão sereno, tão bonito, tão cheio de vida, ao falar da morte.

Se isto for mesmo um aceno final, é do tipo que dignifica toda uma história. E se não for, tudo bem. Fica como uma aula definitiva de como usar espaço, tempo e timbre para organizar sentimentos intraduzíveis. Entre a pedra do Circo Máximo e a escuridão climática da sala, aprendi de novo que um grande concerto não é a soma de músicas, câmeras e canais, é um pacto. No domingo, no meio exato da sala, com luzes em 3D por sobre a cabeça e a guitarra cortando o ar, eu assinei esse pacto com lágrimas nos olhos.

segunda-feira, setembro 15, 2025

ODE À NOSSA FÉ

I. A Natureza de Deus

1. Ó Logos Inefável, Arquétipo de toda a Criação, Tu, cuja essência habita o recôndito da eternidade e cuja glória numinosa transcende a mais locupleta das compreensões humanas. Em Ti não há aporia nem contingência, mas a Verdade Absoluta e necessária, a realidade asseitosa que a tudo fundamenta.

2. Declaramos a Tua unicidade, ó Eterno Absoluto, Axioma Imarcesível, pois não és uma emanação demiúrgica entre outras, um deus em um panteão de potestades finitas. Tu te revelas não em opúsculos de sabedoria humana, mas em uma Unicidade Perfeita e indivisível, manifestando-Te como o Pai, a Fonte numenal, o Princípio incriado de quem emana todo o ser; depois como Filho, o Verbo Hipostasiado manifestado em carne, de pureza ebúrnea, a perfeita teofania do Amor Divino , sendo Tu o resplendor exato de Sua glória e o único ícone visível de Sua essência invisível; e agora como o Espírito Santo, o Sopro Vivificante, o influxo paracletiano que nos impede de sermos meros seres nefelibatas, perdidos no solipsismo de nossas vãs cogitações.

II. A Doutrina do Pecado

3. Meditamos sobre a catástrofe primordial, pois o pecado, essa herança do primeiro filaucioso, Adão, se nos tornou uma nódoa ontológica. Foi a fratura da aliança original, uma deliberada insurreição que introduziu a lógica anômica da morte na perfeita harmonia do Éden, alienando-nos da Tua presença imediata.

4. E, como corolário dessa Queda, contemplamos a depravação radical que se nos tornou natureza: uma vontade cativa, uma mente entenebrecida e uma inclinação perpétua para a iniquidade. Estamos, por nós mesmos, em um estado de miséria espiritual, desprovidos de mérito e incapazes de gerar o ato de justiça que nos reconcilie Contigo.

III. A Obra da Redenção em Cristo

5. Mas Tu, em Teu amor que jamais decide preterir o contrito, e em Tua justiça, que é o cânone absoluto que a tudo afere e que há de vergastar a soberba, providenciaste o resgate. E este não se deu por um ímpeto de um ab irato, mas pela prolepse de um decreto eterno, estabelecido antes da fundação do mundo.

6. E entendemos o Teu Amor Incondicional não como uma tolerância passiva à nossa corrupção, mas como uma ação soteriológica e regeneradora. É um amor que não espera nossa melhora para agir, mas que age para nos transformar, executando a justificação que nos declara justos e iniciando a santificação que, progressivamente, nos torna justos.

7. A Tua Justiça, portanto, não é meramente punitiva, mas, antes de tudo, retributiva e retificadora. É o Teu compromisso inabalável com a Tua própria retidão. Onde há transgressão, a Tua santidade exige uma expiação, não por capricho, mas porque a Tua natureza é infungível e não pode coexistir com o mal. A Cruz foi o altar onde a Tua justiça e o Teu amor foram plenamente satisfeitos.

8. Na cruz, ó Cristo, se deu o grande ponto de inflexão, a cesura que divide a história. Ali, a Morte, essa usurpadora da existência, foi exprobada e despojada de seu poder; ali, o Inferno, a antítese do Teu Reino, foi vencido. Teu sacrifício não foi o gesto obsequioso de um ser menor buscando aplacar uma divindade irascível, mas a afirmação soberana do Teu senhorio, o ato kenótico onde a Graça e a Justiça convergiram em perfeita unidade.

9. Pela Tua ressurreição, a estrutura da esperança foi restaurada. Foste a manifestação teândrica Perfeita, o Deus-Homem, resolvendo a antinomia que nos afligia. A vitória sobre o sepulcro não foi mera alegoria, mas a manifestação empírica da Tua divindade, a garantia factual e irrefutável da nossa própria futura ressurreição em glória.

10. A vitória sobre a Morte e o Inferno é a consequência lógica dessa premissa, selada pelas Tuas próprias palavras de comissionamento antes de ascenderes aos céus: 

"Todo o poder Me foi dado nos shamayim (Céus) e na terra. Ide portanto, e fazei talmidim (discípulos) de todas as nações, realizando-lhes a mikvah (batismo) em Meu Nome. Lhes ensinando a shomer (observar) todas as coisas que Eu vos tenho ordenado, e Eu estou convosco sempre, até a consumação do olam hazeh (desta era). Amém."

E por esta exaltação, compreendemos que não habitas em um lugar geográfico à direita de um trono, como um ser finito, mas que Tu mesmo és a Destra, o Braço do Senhor estendido em poder e salvação; a personificação da glória e da autoridade do Deus invisível, reinando não como segundo em um duunvirato, mas como o próprio Soberano em Seu Templo glorificado, que é o Teu Corpo.

IV. A Dispensação do Espírito Santo

11. E agora, por Tua dispensação, o Espírito Santo, o Paráclito, em nós habita como selo da nossa filiação. Por Ele, nosso entendimento é iluminado e nos é dado aquiescer à Tua vontade, abandonando os sofismas do mundo para abraçar a Tua revelação, não como o fariseu pudibundo que se aferra à Lei de modo servil, mas com a singeleza de quem foi regenerado pela Tua graça infusa.

12. Por esse mesmo Espírito, os dons são distribuídos à Tua Igreja, que é o Teu corpo místico na Terra. A um é dada a palavra da sabedoria, para ser o exegeta dos Teus mistérios; a outro, a palavra da ciência, para ser o apologeta da Tua verdade; a um terceiro, a fé, essa virtude dianoética que move o incognoscível; em seguida, os dons de curar, como manifestação da Tua misericórdia reparadora sobre as mazelas do corpo; e a operação de milagres, como intervenções soberanas que alteram o curso da natureza; a outro, a profecia, a proclamação da Tua vontade soberana; a outro, o discernimento de espíritos, a faculdade de perscrutar a gênese de toda manifestação espiritual; a um, a variedade de línguas, a enunciação de mistérios em elocuções que transcendem o vernáculo; e, finalmente, a outro, a capacidade para a sua interpretação, a decodificação da mensagem celestial para a edificação comunitária.

13. E por Ele também floresce em nós, não como frutos dispersos, mas como um único e multifacetado Fruto, o corolário da nossa nova natureza e a evidência empírica da nossa santificação: o amor (ágape), que é o vínculo da perfeição e a disposição análoga ao próprio ser de Deus; o gozo (chara), não uma alegria circunstancial, mas um contentamento soteriológico que subsiste para além da contingência; a paz (eirene), a harmonia ontológica com o Criador que excede todo entendimento; a longanimidade (makrothymia), a perseverança serena e a clemência paciente ante a provocação; a benignidade (chrestotes), a doçura de caráter e a bondade em ação para com o próximo; a bondade (agathosune), a retidão moral intrínseca e o zelo pela excelência; a fé (pistis), que aqui se manifesta como fidelidade e lealdade pactual; a mansidão (prautes), a força sob controle e a submissão humilde à vontade divina; e, por fim, a temperança (egkrateia), o domínio próprio e o autogoverno ascético do espírito sobre as paixões da carne.

V. A Consumação dos Séculos

14. Aguardamos, pois, com reverente expectativa, a parusia, a consumação da Tua obra, sabendo que a Tua perfeita clareza exige que toda a dissimulação seja desfeita e toda obra, palavra e intenção sejam trazidas à luz através do Teu completo e perfeito plano judicativo.

15. Reconhecemos que o fundamento de todo o Teu juízo redentor já foi estabelecido: o primeiro e mais crucial julgamento, o dos Pecados na Cruz de Cristo, onde o Cordeiro de Deus sofreu a punição vicária, e a dívida que nos era contrária foi plenamente solvida, permitindo-nos aguardar os juízos futuros não com terror, mas com a sóbria confiança dos que já foram justificados.

16. E, a partir desse ato propiciatório, aguardamos a sequência da Tua justiça perfeita: o Tribunal de Cristo, para a avaliação e galardão das obras dos salvos; o Julgamento de Israel, para a purificação do Teu povo terreno; o Julgamento das Nações, para aferir a misericórdia praticada; o Julgamento dos Anjos Caídos, quando a rebelião primeva receberá sua sentença final; o Julgamento de Satanás, o arqui-enganador; e, por fim, o Juízo Final do Grande Trono Branco, o epílogo da história humana, quando os ímpios de todas as eras serão julgados, e a verdade não poderá ser obtida por quem tenta obreptar com astúcia.

17. A Ressurreição é, para nós, a proposição central da nossa fé. Assim como Cristo, o Primogênito dentre os mortos, foi reavivado em corpo glorificado, também nós, a Ele unidos, seremos transfigurados. Este corpo corruptível, este invólucro mortal, se revestirá da incorruptibilidade, tornando-se um templo definitivo para a Tua glória.

18. Então, se descortinará o Milênio, aquele éon de paz e justiça sobre a Terra, um tempo em que o governo teocrático de Cristo será a realidade universal, e toda a dissonância será silenciada sob a regência do Rei dos reis. Será o prelúdio da eternidade.

19. E, para além do tempo, a Vida Eterna, o Summum Bonum, a comunhão perpétua. Não um estado de êxtase estático, mas de adoração e serviço dinâmicos, onde contemplaremos a Tua face na visão beatífica e compreenderemos as profundezas do Teu ser, pois Tu és inesgotável em glória e majestade.

VI. Doxologia Final

20. A Ti, portanto, ó Soberano do Universo, Autor e Consumador da nossa fé; a Ti que decretas, crias, redimes e sustentas a história segundo o Teu beneplácito; a Ti, Eterno cujo Evangelho revelado é antipútrido, e que não conhece princípio nem fim, seja a doxologia de toda a criação, a honra, a glória e o domínio. Altissimamente, e para todo o sempre. Amém.



Artist William Blake (1757–1827)  | The Ancient of Days


segunda-feira, maio 05, 2025

O dia em que rejeitei o cargo de evangelista

A minha avó, com meus dois ou três anos de idade, sonhou que eu reconhecia a Jesus Cristo como meu único e suficiente salvador, e me fez o apelo. Eu reconheci. Aos quatro anos de idade, antes de aprender a amarrar os sapatos, já tinha aprendido a dobrar os joelhos para orar.

A fé não me chegou pelos discursos inflamados, mas pelo sussurro insistente do Espírito, que moldava meu coração em silêncio, como o oleiro molda o barro.

A verdadeira fé não escolhe idade; escolhe corações.

Após a passagem posterior para outra igreja, saindo da Batista (que infelizmente fechou) e indo aos 13 anos para a Assembleia de Deus, migrei para o pentecostalismo que, embora sincero e marginalizado, era legalista e, por vezes, profundamente ignorante.

Aos 16 anos fui para uma igreja menor, onde o zelo sincero se confundia com rigores autoritários que sufocavam a graça. Foi então que me ofereceram o título de evangelista. Alegavam que eu tinha o conhecimento e o envolvimento necessários para aquilo.

Contudo, não senti nenhuma exaltação. Senti o silêncio da parte do Espírito de Deus. Não aquele silêncio que pesa como ausência, mas aquele que protege como escudo. Um silêncio que dizia, sem palavras:

— "Filho, não te apresses em vestir mantos que Eu não costurei."

O silêncio de Deus é, muitas vezes, sua forma mais eloquente de falar.

Recusei. Não por arrogância ou falsa humildade, mas porque sabia, desde cedo, que a unção verdadeira não vem do toque de mãos humanas nem de certificados redigidos por secretários em porões com acordos, intenções e segredos, por vezes, obscuros. A verdadeira unção vem do derramar invisível do céu. Lembrava que Davi fora ungido ainda moço, entre irmãos que zombavam, e que Timóteo precisara ouvir: "Ninguém despreze a tua mocidade" (1Tm 4:12).

Sabia também que Saul, coroado aos olhos dos homens, definhou porque o Espírito já o havia deixado. E temi me antecipar nos degraus sagrados, tomando atalhos e sendo contado entre os que carregam cetros ocos e coroas banhadas em ouro de tolo.

É mais fácil conquistar títulos que caráter.

A tragédia irônica não foi minha recusa, mas o que vi depois. Vi homens que mal sabiam distinguir entre "divórcio" e "repúdio" e, assim, condenavam suas ovelhas por desconhecimento histórico-contextual das Escrituras. Vi pessoas recebendo títulos por amizade, parentela, casamentos, dízimos e ofertas maiores. Vi indivíduos neófitos se levantando para ensinar, sem terem passado tempo suficiente sentados para aprender.

Havia, porém, aqueles poucos, cujas mãos cheiravam ao óleo de enfermos e não ao incenso da vaidade, lembrando-me que, mesmo em sistemas falhos, Deus conserva remanescentes.

Vi mulheres que, na pressa pelo reconhecimento e sem nenhum princípio de submissão (arrepiam até o cabelo quando ouvem essa palavra), inventaram cargos como "presbíteras", lexicalmente equivocados (o correto seria episcopisas), frequentemente esquecendo que o serviço floresce melhor no solo da humildade. Em contraste, recordo-me com carinho daquelas senhoras anônimas do círculo de oração, que não tinham um outdoor no peito, mas cujas vozes, ao orarem ou profetizarem, traziam respostas imediatas dos céus pela intimidade que cultivavam com Deus.

Existem credenciais que apenas os céus podem emitir.

E eu, que aos 14 anos já sabia o que era travar guerras espirituais e lutar com demônios reais, via aqueles títulos cintilando como caixões dourados: belos por fora, ocos por dentro.

Enquanto muitos corriam atrás de certificados brilhantes nas paredes, eu me agarrava às credenciais que só os anjos registram: noites em que o chão do quarto ou o meio do mato se misturavam com lágrimas e brasas acesas de orações roucas.

E compreendi — sem manual, sem seminário — que o verdadeiro chamado é como o vento descrito por Jesus: "O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai" (Jo 3:8).

O chamado que vem de Deus não precisa de autorização humana. Não se escreve em pergaminhos, mas nas cicatrizes que são como as impressões digitais da alma.

O céu reconhece mais marcas que medalhas.

Hoje, quando vejo "doutores em divindade" tropeçando nos próprios títulos, recordo com gratidão aquela manhã em que, aos 17 anos, recusei o manto que não era meu.

E entendo que, no Reino de Jesus Cristo, Ele ensinou sobretudo a importância da função e do serviço, mostrando que títulos humanos podem ser como a lanterna de Judas: iluminam o caminho apenas para confirmar a própria vaidade e o abismo egótico.

No dia em que todos os títulos caírem como folhas secas diante do trono, serão essas marcas — e não os crachás — que brilharão na eternidade, resistindo ao fogo da provação.