A aritmética dos imbecis e o silêncio dos que já responderam a Deus

Há uma insolência peculiar na miopia.

Há quem julgue com a precisão cirúrgica que só a ignorância mais estrita lhe confere.

Olham de relance, digerem mal, sentenciam em definitivo e batizam essa pressa indigesta de “discernimento”.

É a aritmética dos imbecis: quanto menor o horizonte, mais pesada a condenação, como se a complexidade de uma existência pudesse ser espremida no lodo de uma impressão rasteira.

Mas, honestamente? Esgotei-me da paciência de ser traduzido por analfabetos que desconhecem a sintaxe da própria alma.

Portanto, recuo.

Entro no quarto e tranco a porta.

Ali desaba a ilusão de que a vida se resolve no asfalto, no argumento, na reiteração exaustiva de explicações aos de fora.

Essa gente é herdeira direta dos fariseus que exigiam a circuncisão alheia: fiscais da intimidade do outro, obcecados em mutilar prepúcios e vistoriar clitóris, acreditam que devam desenhar a intimidade do outro para que este caiba nos parâmetros de sua seita particular.

Mas Deus não se confunde com a massa.

Ele não faz parte da plateia.

E é por isso que despir-se diante Dele é uma assepsia tão violenta quanto cirúrgica.

Ali, no solo sagrado de seu coração, onde apenas os que entram com reverência devem permanecer, pois carregamos em nós a Imago Dei, ocorre a verdadeira circuncisão: a do coração.

E então, no claustro sagrado, cai o figurino da inocência.

Não há espaço para ensaiar uma defesa bonita nem para adereçar o espírito com adjetivos palatáveis.

Deus não se ocupa com orações performáticas.

Diante do Absoluto, a verdade perde a pose.

Ela se impõe: crua, obscena de tão límpida.

Se há fratura, Ele expõe; se há vaidade, Ele extirpa; se há blefe, apodrece sob o impacto da luz direta.

Mas, se há vestígio de verdade, Ele o sustenta.

E é exatamente essa sustentação vertical que enfurece os capatazes do cotidiano: a visão de um homem aprumado por uma gravidade que não passa pelas mãos deles.

Porque o verniz do “zelo” raramente esconde mais do que o apetite pelo domínio.

O desespero da perda de influência se disfarça de conselho carinhoso.

Quem rosna “só quero o seu bem” geralmente exige apenas o monopólio da sua biografia.

O quarto fechado implode esse teatro.

Sob o olhar do Absoluto, os homens não evaporam; apenas recuperam sua escala microscópica.

Retornam ao seu tamanho.

Desinflam.

Desincham.

Recolhem-se à sua própria insignificância.

Mas também se percebe que a plateia social é igualmente insignificante.

A voz que intimidava perde o fôlego; a boca que exigia prestação de contas torna-se caricatura risível; o tribunal de província perde o direito à toga.

A Sentença divina te absolve pela Lei da Cruz e declara incompetente o fórum humano que te condenou.

A multidão, vista de cima, é um borrão de poeira.

Compreende-se, enfim, o axioma definitivo: responder a certas ofensas é conceder-lhes status de duelo.

Há silêncios que não nascem da covardia, mas do asco.

E não se trata de arrogância. Ou talvez se trate de um orgulho legítimo: a recusa solene em ceder a cadeira de magistrado a quem mal serviria como testemunha de acusação, pois também é culpado de igual ou pior pecado.

Explicar-se a quem já nos condenou na premissa é desperdício de soberania.

Ao reabrir a porta do coração ao Eterno, o trânsito interno mudou.

Não se sai dali leve.

A leveza é uma virtude de balões.

Sai-se blindado.

Menos palatável.

Menos disponível para o escambo das reputações.

O mundo continuará seu latido habitual.

Acerte por uma década e cometa um deslize: o tribunal decretará que a sua máscara caiu e que você finalmente mostrou quem é de verdade.

Seja um canalha histórico e ensaie um gesto mediano: a plateia aplaudirá sua “redenção”.

A massa ressentida é historicamente generosa com quem a calibrou pelo absurdo, mas sádica com quem ousou manter a espinha ereta.

Que falem.

Há bocas que precisam do parlatório porque o silêncio as obrigaria a escutar o eco da própria miséria.

Para quem cruzou o umbral do secreto, contudo, a periferia humana deixa de importar.

Conquista-se uma soberania quase criminosa aos olhos dos fracos: a insolência de não precisar ser decifrado por mentes tacanhas, a recusa de comparecer aos júris forjados pelo orgulho alheio.

O que verdadeiramente tortura os falsos juízes não é a sua rebeldia, mas a descoberta de que as algemas deles já não encontram seus pulsos.

Quem sai do quarto fechado desiste de seduzir a praça pública.

Carrega nos olhos o pior dos vereditos para o mundo: uma paz que prescinde de autorização para existir e ser.


Caspar David Friedrich, O monge à beira-mar / Der Mönch am Meer, 1808–1810, óleo sobre tela, 110 × 171,5 cm. Acervo: Alte Nationalgalerie, Berlim.





Comentários

Postagens mais visitadas