O primado da ignorância: quando Millôr Fernandes resolveu ler José Sarney
Crítica literária · Ensaio · Memória
Quero compartilhar com vocês um dos textos de crítica literária de que mais gosto. Trata-se da análise que Millôr Fernandes fez de Brejal dos Guajas, de José Sarney, publicada originalmente no Jornal do Brasil, em janeiro de 1988, e recuperada por Augusto Nunes, em onze partes, na Veja, entre 17 e 23 de novembro de 2013.
É um exercício
extraordinário de leitura crítica, minuciosa, longitudinal e transversal.
Millôr examina a frase, a sintaxe, a escolha vocabular e o sentido; depois
coteja passagens distantes, confronta informações, expõe incoerências
narrativas e submete a geografia e a demografia fictícias do livro a contas
elementares. Tudo com uma inteligência sarcástica, irônica e ácida, daquelas
que fazem o leitor rir e voltar à página para perceber como o absurdo foi
demonstrado.
Sinto falta de ler textos
assim. De acompanhar um autor que não se contente em adjetivar o adversário,
mas saiba desmontar um raciocínio por dentro, localizar a premissa defeituosa,
mostrar a contradição e fazer da própria demonstração uma peça literária.
Durante muitos anos
acompanhei Reinaldo Azevedo em seu blog na Veja, sobretudo quando
respondia aos leitores. Era fascinante vê-lo desconstruir um argumento e, no
mesmo movimento, dar uma aula de lógica, gramática e uso rigoroso da linguagem.
Também guardo essa
lembrança dos textos de Olavo de Carvalho. Recordo particularmente seu
debate escrito com Aleksandr Duguin, em 2011, sobre os Estados Unidos e
a Nova Ordem Mundial. Na resposta à terceira intervenção do russo, Olavo tomou
o texto adversário, dividiu-o em 60 parágrafos numerados e passou a
examiná-los um a um, confrontando conceitos, premissas, inferências e
contradições. A discussão sobre a distinção entre o agente político e o
observador científico é especialmente interessante. Mais do que a divergência
ideológica, impressiona-me o exercício de argumentação, a atenção à linguagem e
a disposição de submeter as afirmações do interlocutor às consequências lógicas
do próprio raciocínio.
Outro episódio de que me
recordo, com particular diversão, é sua resposta ao então ministro da Justiça Aloysio
Nunes Ferreira, em 2002. A controvérsia envolvia uma altercação entre Nunes
e Tasso Jereissati, recentemente submetido a uma cirurgia cardíaca, durante a
qual o ministro, segundo o relato jornalístico reproduzido por Olavo, teria
feito uma provocação ao governador por ser safenado. No artigo Meu
mergulho no esterco, Olavo examina a distinção entre fato e versão,
questiona ambiguidades da resposta ministerial e enfrenta a ofensa de ter sido
chamado de “filósofo de meia tigela”. Em vez de simplesmente revidar,
toma a expressão literalmente e desenvolve uma explicação hilariante sobre a
utilização de tigelas, inteiras ou pela metade, no exercício da filosofia.
Depois, encerra o texto convidando retoricamente o ex-ministro a não se
intimidar: ao contrário de Jereissati, encontrava-se apenas gripado, sem
problemas cardíacos ou pontes de safena. É essa combinação de inteligência,
irreverência, domínio da língua e capacidade de transformar a própria ofensa
num motivo de ridículo que sinto falta de encontrar com maior frequência. A
ironia, quando construída com inteligência, consegue fazer mais estragos num
argumento do que páginas inteiras de indignação.
Foi durante minhas leituras, no final dos anos 2000, muitas delas de textos publicados anos antes, que me deparei com a palavra hebdomadário. Nunca mais esqueci seu significado. Mais do que a descoberta de um vocabulário incomum, ficou a admiração pela precisão das palavras, pela construção dos períodos, pelo domínio da língua portuguesa e, sobretudo, pela inteligência de quem conseguia transformar uma objeção lógica em literatura, fazendo da ironia um instrumento de crítica e do raciocínio uma verdadeira arte de escrever.
É nessa tradição de
crítica afiada que situo o texto abaixo. Millôr não se limita a dizer que o
livro de Sarney é ruim: dedica-se a demonstrar, passagem por passagem, por que
considera sua construção literária insustentável. E o faz com um humor tão insolente
quanto inteligente.
Recomendo também a
leitura de Crítica da razão impura ou O primado da ignorância, de
Millôr Fernandes, publicado pela L&PM em 2002. O volume reúne sua análise
de Brejal dos Guajas e uma crítica à obra Dependência e
desenvolvimento na América Latina, de Fernando Henrique Cardoso. É um livro
sensacional.
Uma crítica literária tão rigorosa quanto insolente.
Millôr Fernandes foi um gênio. E faz falta no debate nacional.
Com vocês, Millôr Fernandes.
Sarney e o Brejal
dos Guajas
Millôr Fernandes · Jornal do Brasil, janeiro
de 1988 · republicação organizada por Augusto Nunes na Veja, novembro de
2013.
Parte I
(Uma tentativa de
entender o livro, o autor, e o país em que nasceu um e foi publicado o outro)
Leitor, mais uma vez fui
enganado. E enganado em literatura, por gente da melhor qualidade pra julgar
literatura, como João Gaspar Simões, Jorge Amado, Carlos Castello Branco, Josué
Montello, Luci Teixeira, Antônio Alçada Baptista, Lago Burnett. E last but
not least, pelo mais preparado de todos pra tarefa específica (estudou em
Heidelberg), o crítico literário Leo Gilson que, em 66, me levou para a honrosa
propaganda da Olivetti, de onde fomos afastados, Deus do céu!, por suspeitos de
comunismo.
Fui enganado por todos
esses luminares do pensamento. Da literatura de Sir Ney me afirmaram, em
escritos de fé: “Uma nova vertente na literatura Norte-Nordeste” – Carlos
Castelo Branco. “Grande escritor” – Josué Montello. “O processo ficcional de
repente se faz em correlações onde pequenos binários de ação se sintonizam por
força da mesma tenção significadora” Luci Teixeira. “Lamentar o prejuízo que a
literatura de expressão portuguesa tem vindo a sofrer pelo fato de José Sarney
se lhe não dedicar o tempo inteiro” – Alçada Baptista. “José Sarney é um
escritor político no amplo sentido em que atinge a abrangência aristotélica” –
Lago Burnett. “O regionalismo que ele renova com a sua paisagem humana, sua
poesia, sua afinidade com a ingenuidade, a pureza e a graça maliciosa do povo
maranhense, mosaico do povo brasileiro” – Leo Gilson Ribeiro.
Todos me enganando. Só
fui desconfiar, apavorado com o complô, na primeira vez em que ouvi Sir Ney
usar o apelativo rastaquera, “Brasileiras e brasileiros”, fazendo média
contraproducente (por ridícula) com o feminismo. E percebi, também, que ele era
incapaz de construir uma frase, quanto mais um período, e nem falar de um
discurso lógico. Por isso fui reler o Brejal dos Guajas com mais
atenção. Fiquei estarrecido. Não se pode confiar o destino de um povo,
sobretudo neste momento especialmente difícil, a um homem que escreve isso. Não
tendo no cérebro os dois bits mínimos para orientá-lo na concordância entre
sujeito e verbo, entre frase e frase, entre ideia e ideia, como exigir dele um
programa de governo coerente pelo menos por 24 horas?
Não escrevi imediatamente
sobre o livro por uma questão de… piedade. Mas agora, depois da jogada de
gigantesca corrupção em que, como medíocre ditador, troca esperança de 140
milhões de brasileiras e brasileiros por mais um ano de sua gloríola regada a jerimum,
começo uma pequena análise dessa ópera de 50 páginas. Esclareço logo que não se
trata de um caso de má, ou até mesmo péssima, literatura, de uma opinião
malévola ou discutível. Em qualquer país civilizado Brejal dos Guajas seria
motivos para impeachment.
A seguir: Mas, afinal,
Sir Ney, escreveu ou não escreveu um livro? Da mistura das leituras mais
simplórias misturadas de maneira confusa, numa cabeça sem similar no mundo da
intelequitualidade, o autor conseguiu chegar a isso que é a ambição de meio
mundo – um livro? Leia a opinião da UNESCO a respeito. É. Aguardem!
Parte II
As opiniões divergem.
Alguns brilhantes e cultos intelectuais, como os já citados aqui, afirmam,
audaciosamente, que Brejal dos Guajas é um livro. Eu garanto que não. É
uma anedotinha “socialzinha” tolinha (já contada mais de um milhão de vezes) da
briguinha de dois coroneizinhos de uma cidadezinha perdidinha no interiorzinho
do Maranhão. O autor deve ter lido umas 20 páginas de Jorge Amado (Marli, que
socialismo!) e umas cinco de Guimarães Rosa (Zezinho, que linguagem! E que
difícil, Murilo!) e isso, claro, lhe causou uma indigestão na cabeça.
Reacionário desde sempre, deve ter achado fascinante e lucrativo ser um
escritor do povo. Sem jamais ter entendido a realidade em volta, naturalmente
fundiu diante do realismo mágico. Incapaz de juntar sujeito e predicado em
português escolar, se perdeu na aventura da linguagem que é Guimarães Rosa – e
até hoje não encontrou a volta.
A istória do Brejal
não se sustenta no todo ou em partes. No todo, porque tem um “enredo” sem a
mais mínima consistência, a tentativa poética é lamentável, a de filosofia
ridícula. Em partes porque, no livro, praticamente, não tem uma frase que não
seja errada em si mesma ou incoerente em relação a outras mais adiante ou mais
pra trás. E, perto da estrutura dos personagens do Brejal, os
personagens da Praça da Alegria, da televisão, são obras-primas de criação
psicológica, heróis do Guerra e Paz.
Brejal dos Guajas só pode ser considerado um livro
porque, na definição da Unesco, livro “é uma publicação impressa não periódica
com um mínimo de 49 páginas”. O Brejal tem 50. Materialmente, Sir Ney
salvou-se por uma página. Contam os íntimos que o “escritor”, depois de vinte
anos de esforço, bateu o ponto final na página 50 e gritou, aliviado, pra dona
Kyola: “Maiê, acabei!”
Parte III
Descoordenado motor
(incapaz de se agachar e tirar a etiqueta de um sapato), Sir Ney é mais
descoordenado como pensador. Brejal é o livro de um autista.
Há solecismos em penca,
as idéias nunca se completam e sempre se contradizem. A cidade, que não tem
escola, tem professora e alunos, não tendo telégrafo transmite telegramas, não
possuindo edifícios públicos tem prefeitura, câmara de vereadores, juizados de
casamento, dois cartórios, ostenta uma força policial de pelo menos 12 homens
(relativamente, o Rio teria que ter uma força policial de quase meio milhão de
policiais), é dominada por dois primos por pais diferentes (!!!!), “ricos e
poderosos”, e, tendo só duas ruas (quase uma impossibilidade urbanística; eu
sei como desenhar uma cidade de duas ruas, Ele não sabe), tem duas orquestras
(ele quer dizer bandas), e comporta ainda mercado, lojas, igrejas matriz, etc.
O verdadeiro milagre brasileiro! Tem mais, essas duas espantosas ruas de 120
casas (com o que Sir Ney quer significar um vilarejo perdido do mundo), por
meus cálculos matemáticos irrefutáveis, abrigam uma população de 15.272
pessoas, o que faz do Brejal, em 1945, época da istória, talvez a maior
cidade maranhense, depois de São Luís.
Ou isso é o mais
maravilhoso realismo mágico de que eu jamais tive notícia, obra esfuziante de
um gênio que só vai ser compreendido daqui a séculos, ou estamos diante da mais
espantosa incapacidade de expressão da literatura universal.
Parte IV
Fascinado, continuarei a
demostrar que Brejal dos Guajas é obra sem similar na literatura de
todos os tempos. Só um gênio conseguiria fazer um livro errado da primeira à
última frase. Espero que meus modestos comentários alertem os amigos do vosso
Presidente, como o governador José Aparecido de Oliveira, pra que lutem a fim
de que a Unesco transforme esse livro num patrimônio da humanidade. Depois dos
artigos de caráter geral, começo hoje a analisar frase por frase dessa catedral
do avesso do pensamento humano. Tendo o livro cinquentas (para usar a
concordância do autor) páginas de 36 linhas, estaremos juntos aqui durante
cinco anos (epa!). Sei que vão me considerar mais um puxa-saco, mas isso não me
impedirá de divulgar tão gigantesca efeméride (literatura é efeméride?).
Comecemos pelo título, Brejal dos Guajas. É espantoso que, maranhense, o
homem não saiba a acentuação tônica (é tônica, pois não?) desse gentílico. Não
é Guajas. É oxítono, Guajás.
Na página 22, o autor se
aprofunda, explicando o Brejal: “Chamado dos Guajás, porque ficava
próximo à aldeia dos Guajajaras, hoje longes (sic), perdidos, mortos e
domados”. O cós não tem nada a ver com as calças: Guajás e Guajajaras (*) são
duas tribos diferentes (ambas do Maranhão), a primeira ainda nômade, com alguns
elementos com os quais não se conseguiu contato, e a segunda normalmente
sedentária. As duas tribos até que, até hoje, se estranham. A frase de Sarney
equivale a: “Chamados de brasileiros porque ficavam próximo à aldeia dos
argentinos”. Sem falar que os Guajajaras não estão “longes (sic), perdidos,
mortos e domados”. Reduzidos a uns 800 na década de 40, são hoje
aproximadamente 6 mil. Uma grande tribo. E não vão votar no Sir Ney, porque não
gostam de ser chamado de Guajás, e nem mesmo de Guajajaras, mas de Tenetearas.
Guajas não sabem o que é. Nem querem saber.
(*) Em matéria de guajas,
guajás, guajajaras e tenetearas, meus agradecimentos ao antropólogo Carlos
Alberto Ricardo – Beto)
Não percam, a seguir,
afinal, a análise da primeira frase do extraordinário livro: “O caminho do
Brejal era longe”.
Parte V
Comento hoje a 1ª linha
do livro: “O caminho do Brejal era longe”.
Como o caminho do Brejal
era longe? O autor esta querendo mostrar o isolamento da cidade, um mundo
perdido, pobre, abandonado, com apenas duas ruas (mais tarde provarei que era a
maior cidade do Maranhão, depois da capital); portanto, Brejal seria “longe de
todos os caminhos”. Quando o autor diz que “O caminho do Brejal era longe”,
como garante que é o caminho do Brejal? Sendo longe do Brejal, o caminho, em
última análise, não é do Brejal. Vai ver é de Pirapora, Cascadura, Nova
Zelândia, sei lá. Uma coisa, Sir Ney, o caminho de um lugar é sempre perto
desse lugar, a partir de. Pode ate não ir longe, mas é perto. Se, porém, o
autor assume um ponto de vista exterior em relação ao Brejal (o que
absolutamente não foi feito), tem que dar uma ideia de onde está. Na Academia
Brasileira de Letras, por exemplo? Mas daí pro Brejal, todos sabem, o caminho é
muito perto.
(A coluna publicará
nos próximos dias as seis partes finais da hilariante análise de Millôr sobre o
livro de José Sarney)
Parte VI
TRECHO DO LIVRO: “I) O caminho do Brejal era
longe. II) Longe demais para ser contado em dias ou léguas. III)
A distância dependia da época das viagens: se era no Inverno, invernão de pingo
grosso, seis meses de água por todos os lados, não tinham (1) fim. IV) De
comboio até longe, de longe em canoa subindo o rio Itapicuru até a Laje
Amarela, e de lá a cavalo até a ponta da rua ou mais, se era amigo, e se não
era, da ponta da rua ate à hospedaria do mercado, falando mansinho, olhando de
lado e de frente (2), até que se soubesse a que vinha e donde”.
I) Frase já comentada.
II) Contado (é medido que ele quer dizer? Então em quê? Anos – luz? Não,
na frase III vê-se que o caminho do Brejal era longe como qualquer
caminho quando chove paca. Por exemplo, do Clube Caiçaras ao Clube Piraquê, ali
na lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, são 900 metros. Mas, se chover, eu
levo duas horas (medidas!) pra atravessar esse Brejal dos Tivolis. Porém a
distância entre um ponto e outro continua 900 metros. Não dá pra dizer que o
caminho do Caiçaras (ou do Piraquê) é longe. Esses tinham (1) aí é gênio! Não
bate com caminho. Não bate com distância. Se (só na cabeça neosemântica do
autor!) bate com seis meses, então tinham fim: 180 dias.
IV) Nesta frase, o autor assume uma posição nitidamente exterior ao
Brejal. Deve achar que o leitor sabe onde ele está. Não sabe. Eu sei porque é
evidente que a cabeça do autor só raciocina a partir de Pinheiros, Maranhão, 24
de abril de 1930. Ainda não saiu daí, nem no espaço nem no tempo. De onde o
autor está até o Brejal, o cara tem que pegar um comboio, depois uma canoa até
Laje Amarela, onde, é evidente, existe uma posta de cavalos. Ou o cara leva seu
cavalo no comboio e na canoa? A frase nem é analisável em sua tronchisse
barroca, exceto nesse (2) “olhando de lado e de frente”. Significando o quê
levantando desconfiança? De lado e de frente é como todo mundo olha. Se o
viajante viesse olhando pro alto e pro chão é que dava na pinta.
Vocês vão ver que o
Brejal é bem localizável: 1) os “coronéis” estavam a toda hora em São Luís. 2)
Bamburral (pág. 22) dista 4 léguas, e a Encruzilhada do Manuel, onde mora o
vereador Pipira Preta, fica a seis léguas (pág. 37). Só falta o autor dar o CPF.
(A coluna continuará a
publicar nos próximos dias as cinco partes finais da hilariante análise de
Millôr sobre o livro de José Sarney)
Parte VII
TRECHO DO LIVRO: “Ruas tinha duas: a da Matriz e do
Mercado. A cidade era menos mais que umas três quarentenas de casas. Nem
telégrafo, nem calçadas, nem prédios públicos, nem escolas. Aliás, escola tinha
uma, de uma sala, construída recentemente; nela residia o sargento da força
policial de dez praças”.
Três quarentenas. Esse
parâmetro numeral praticamente não existe. Só a última edição do Aurélio (1986)
dá quarentena com esse sentido e a frase de abonação é… exatamente a aí acima,
do Sir Ney! Desconfio que isso é coisa do Joaquim Campelo, craque em léxico,
grande colaborador do Aurélio e… grande colaborador do Sir Ney.
Bem, uma cidade de apenas
120 casas (ele quer dizer o fim do mundo) tinha igreja matriz, um mercado
(grande, pois nele havia “uma hospedaria”), açougue, venda (pág. 20), e loja do
genro do coronel Francelino (pág.12). Fala-se ainda (pág.45) do coronel Guiné
“utilizando o Caixa e Razão de sua loja”. Mariquita tinha “uma pousada”
(pág.12), e à pág.27 “os pequenos comerciantes não abriram as portas”. Estamos
no coração de Manhattan.
A cidade não tinha
telégrafo, mas se lê: “O coronel Guiné passara um telegrama aderindo” (pág.
10), e, na pág. 11, “não era duas nem três vezes que (o coronel Javali)
telegrafara; não tinha calçadas, mas na pág. 12 descreve-se a casa de Javali
(“sortida, de dez portadas, calçadas altas”), na pág. 26, Mário, depois de
cortar o rabo da jumenta “atirou na calçada a encomenda”, e na pág. 58 (*)
Zacarias fica “protegido na quina de uma calçada alta.”; não tinha prédios
públicos mas tinha cobradores de impostos (pág. 11), nove vereadores, dois
notários. Na pág. 21 diz-se “Às quatro todos esperavam na delegacia”, na pág.
35 Zé do Bule convida os presentes “a comparecerem ao baile da Prefeitura”; não
tinha escolas mas, neste mesmo período, se diz que tinha uma, ocupada pela
força policial; na pág. 45 “O veículo seria recebido pelos meninos do colégio
da Prefeitura”, na pág. 52 o coronel Guiné fala de uma escola, e nomeia-se uma
professora (pág. 40). O verdadeiro baião do maranhense doido.
(*) Como eu disse o livro
tem 50 páginas. Mas, pra parecer mais com um livro, a numeração começa na
página 8.
Não percam, a seguir,
a extraordinária capacidade literária de Sarney mostrará que não tem qualquer
capacidade literária.
(A coluna continuará a
publicar nos próximos dias as quatro partes finais da hilariante análise de
Millôr sobre o livro de José Sarney)
Parte VIII
TRECHO DO LIVRO: “Do antigo teso grande onde agora se
localiza a cidade só restava um pé de tamboril, copudo, verde, de folhagens
abertas, em frente à casa de D. Rosa Menina (1). Na época da safra (2)
os moleques vinham e juntavam as favas chatas (3). Ali, antigamente, os
veados deviam chegar (4) para a comida nas noites de Verão (5).
Boa espera teria sido (6) aquele tronco onde agora ficavam amarrados os
animais e a rancharia (7). Na cidade todos se conheciam (8) e o
que se vendia eram os teréns de vestir e de comer, e um pouco de arroz (9),
porque não era zona de arroz, mas de muito babaçu e farinha (10).
Chamado dos Guajas (11) porque ficava próximo à aldeia dos guajajaras (12),
hoje longes (13), perdidos, mortos e domados”.
ANÁLISE APENAS
SUPERFICIAL:
1) A primeira e única vez em que Rosa é tratada de Dona. Logo o autor
esquece, fica íntimo, Rosa pra cá, Rosa pra lá. A memória, como já se viu, não
é o forte do autor. Mesmo a apenas duas frases de distância.
2) Safra de uma árvore só? Eta, arvorão!
3) Fava, por definição, é chata. Pode até ser redonda, mas é chata.
4) Deviam chegar ou chegavam? O autor tá aí pra dar informações, pô!
5) Veado só come em noite de verão? Seria a Ceia de Natal?
6) Teria sido? Pô, esse autor não tem certeza de nada?
7) Rancharia amarrada num tronco de árvore? Eta arvorão porreta!
8) Pudera não!
9) E arroz não é de comer?
10) Gente, no Brejal tem pé de farinha!
11) Sujeito oculto por elipse, e bota elipse nisso.
12) Por que Guajas com maiúscula e guajajaras com minúscula? Era uma
tribo inferior?
13) Substantivo-advérbio já desclassificado na primeira eliminatória.
A SEGUIR. ERROS DE
NOSSO PRÓXIMO CAPÍTULO:
cacófatos, apedeutismos, lacunas, lapsus plumae, sobejidades, obscuridades,
ambages, e a morte de um cachorro sufocado por uma conjunção adversativa.
PLIM,PLIM!
(A coluna continuará a
publicar nos próximos dias as três partes finais da hilariante análise de
Millôr sobre o livro de José Sarney)
Parte IX
Pra não dizerem que tenho
má vontade, terminada a ingente tarefa de análise da 1ª página do Brejal,
realizo a tarefa ingentíssima de copidescar a mesma. Como bom copy, respeitei o
estilo do autor, mudando léxico e sintaxe só quando fundamental. Fiz também
ligeiras alterações de sentido, preparando a base lógica do futuro. Coisa que o
autor não soube fazer, nem no Brejal, nem no Brasil.
Era longe, o Brejal.
Longe demais, difícil mesmo de medir em dias ou léguas. Pois, quando chovia, no
invernão de pingo grosso, seis meses de água por todos os lados, o Brejal se
afastava, a distância não tinha fim. Daqui, primeiro um comboio até bem longe,
de longe em canoa, subindo o Rio Itapicuru até Laje Amarela, e de lá, num
cavalo já avisado, até a ponta de uma das ruas, e mais, se era gente amiga,
senão só até o único quarto de hospedaria do pequeno mercado e olhando assim,
só de frente e de lado, cuidando de falar mansinho, até que se soubesse a que
vinha e donde.
Ruas mesmo, tinha duas: a
da Matriz e a do Mercado. A cidade era menos que seis vintenas de casas. O
telégrafo era só quando Deus queria, as calçadas um luxo de poucos, três ou
quatro casebres faziam de prédios públicos. Escola não tinha, quer dizer, tinha
uma, de uma sala, construída recentemente, nela residia o sargento da força
policial de dez praças, outra escola estava sempre ficando pronta, e havia um
galpão na Prefeitura.
Do antigo teso grande
onde agora se localizava a cidade só restava um pé de tamboril, copudo, verde,
de folhagens abertas, em frente à casa da Rosa Menina. Quando estava no tempo,
os moleques vinham e juntavam as favas. Ali, antigamente, os veados chegavam à
noite para a comida sem sustos. Boa espera deveria ser aquele tronco onde agora
ficavam amarrados os animais, junto da rancharia. Na cidade, como era, todos se
conheciam, e o que se vendia eram os teréns de vestir e de comer, pouco arroz,
mas de muito babaçu e mandioca. Brejal dos Guajas, porque ficava próximo à
aldeia dos Guajajaras, hoje domados, perdidos, mortos nos longes.
(A coluna continuará a
publicar nos próximos dias as duas partes finais da hilariante análise de
Millôr sobre o livro de José Sarney)
Parte X
Aqui vão, leitores,
apenas mais algumas pequenas observações sobre Brejal Dos Guajas,
obra-prima inigualável. O único livro que conheço errado da primeira à última
linha. Reitero meu pedido ao governo José Aparecido para que lute por tombar
(também) esse livro, transformando-o em patrimônio da humanidade. Os dadaístas
num tão cum nada.
Pág. 10) “Quem ganhar as eleições será o dono
de todas as posições municipais e o chefe do partido.” Pudera.
Pág. 11) Fala do senador Guerra: “O nosso
partido, compadre, foi feito pra servir os amigos. A lei é dura pra quem é mole
(…) inimigo aqui não tem bandeira…” O coronel Javali fica perplexo com essa
“ameaça velada”.
Pág. 12) “Afinal de contas, herdaram do avô,
ele e o primo Né, por pais diferentes, o eleitorado e os bens.” Primos por pais
diferentes? É mesmo o primado da ignorância.
Pág. 19) “Uns chamavam de jíparo, outros de
jipa.” Por volta de 1960 (*) os brejalenses que nunca viram um carro, nem em
efígie! chamam o jipe assim. Nos anos 40, quando os repórteres da O Cruzeiro
desciam no Xingu de Beechcraft, os índios chamavam o avião de… Beechcraft
(bixicrafi). Sir Ney conseguiu uma corruptela mais difícil do que o
corruptelado jipe. Essa istória do jipe, no livro, vale um estudo especial.
Pág. 12) O Coronel Javali “Falava devagar,
usando sempre vossa mercê”. Nem uma vez o coronel usa o vossa mercê no livro.
Pág. 12) “O Coronel Né Guiné usava o ‘meu
senhor’ sem muitos rebuços (?)”. O coronel Né Guiné também não tem memória e
esquece essa recomendação do autor.
Pág. 22) “A notícia correu célere. De ponta a
ponta, de lado a lado.” As duas ruas teriam no máximo 300 metros. Bastava um
grito.
Pág. 22) “Seus amigos de longas datas.”
Longas datas? Viiinnte e seettte deee maaiiiiooo de miiilllll
noooveeeeceeeeeentttooosss e quaareeeenta eeee oooito? É por aí? Tão bem
longas?
() A história se passa mais ou menos
em 1960, por certas dicas do autor. Mas ele não sabe.*
(A coluna publica
amanhã a última parte da hilariante análise de Millôr sobre o livro de José
Sarney)
Parte XI
Observação final (a não
ser que me solicitem mais) com demonstração de matemática elementar, meu caro
Watson (a partir de dados fornecidos inconscientemente pelo próprio autor),
provando que o Brejal, com apenas duas ruas, era uma das maiores cidades do Maranhão,
cuíca do mundo. Rationale.
I) Na pág. 60 está: “– Quantos
eleitores tem o Brejal? – 2.053 – ambos responderam”.
II) Pode-se precisar razoavelmente a
época da istória pela frase à pág. 10: os dois coronéis eram “da mesma corrente
política invicta em todos os pleitos realizados desde a queda da ditadura”.
José Ribamar Sir Ney está falando da outra ditadura, 1930/45, anterior à dele,
1964/85. Ora, “todos os pleitos” são mais três, no mínimo. Dois,
definitivamente, não são todos. Portanto, a istória (!) acontece por volta de
1960, mais ou menos 15 anos depois da queda da ditadura getulista. Isso é
estatisticamente importante: nessa época. Numa região pobre, a população abaixo
de 18 anos elevava-se a mais de 60% (hoje é 40% em todo o país). Mas vamos
deixar por 50%. Portanto os 2.053 eleitores são parcela, não de 100% da
população, mas de 50% dela, já que metade não estaria na faixa do voto.
III) Nas quatro linhas finais da istória,
numa babaquice que pretende, acho, ser poética-social-irônica, o autor
grandilóqua: “…E o povo do Brejal feliz: oitenta por cento de tracoma, sessenta
de bouba, cem por cento de verminose, oitenta e sete de analfabetos, mas feliz,
ouvindo a valsa do Brejal, Brejal dos Guajajaras”.
Ora, quem tem 87% de
analfabetos, tem penas 13% de alfabetizados. Como os 50% da população abaixo de
18 anos não votam (embora, por serem mais novos, devam ter até maior índice de
alfabetização) isso significa que dos 13% alfabetizados apenas 6,5% votam. Quer
dizer, os 2.053 eleitores do Brejal correspondem a 6,5% da população total.
Façam agora uma simples regra de três: “6,5% estão para 2.053 assim como 100%
estão para X”, e verificarão que Brejal dos Guajas tinha uma população de
31.584 pessoas. Mesmo distribuindo generosamente 60% dessa população para área
rural (da qual, aliás, não se fala), ainda assim teríamos 12.683 pessoas nas
duas ruas. 105 pessoas por casa! Eta, apertamento!
Janeiro 1988
E FORAM TODOS FELIZES
PARA SEMPRE.
Zé pai, Zé filho
(Zequinha), Roseana, Murad e outros menos votados.
F I M
Referências
CARVALHO, Olavo de. Against Right-Wing Bolshevism (or Leftist Traditionalism): a point-by-point answer. The United States and the New World Order, 23 maio 2011. Disponível em: https://debateolavodugin.blogspot.com/2011/05/r4-olavo-eng.html. Acesso em: 10 out. 2026.
CARVALHO, Olavo de. Meu mergulho no esterco. Olavo de Carvalho, 2002. Disponível em: https://olavodecarvalho.org/meu-mergulho-no-esterco/. Acesso em: 10 out. 2026.
DUGIN, Aleksandr. [R3] Dugin (Eng.). The United States and the New World Order, 24 abr. 2011. Disponível em: https://debateolavodugin.blogspot.com/2011/04/r3-dugin.html. Acesso em: 10 out. 2026.
FERNANDES, Millôr. [Crítica ao livro Brejal dos Guajas, de José Sarney]. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, jan. 1988. Reproduzido em: NUNES, Augusto. Grandes textos: Sarney e o Brejal dos Guajas. Veja, São Paulo, 17–23 nov. 2013. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/augusto-nunes/grandes-textos-sarney-e-o-brejal-dos-guajas/. Acesso em: 10 out. 2026.
FERNANDES, Millôr. Crítica da razão impura ou O primado da ignorância: sobre Brejal dos Guajas de José Sarney e Dependência e desenvolvimento na América Latina de Fernando Henrique Cardoso. Porto Alegre: L&PM Editores, 2002.

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