dois parênteses entre reticências

 
(i) o logos

A palavra apareceu na tela numa dessas horas em que a noite já não sabe se continua sendo noite ou se deve entregar ao dia aquilo que ainda não terminou.

Amizade.

Li-a com a atenção que costumo dedicar às palavras capazes de produzir consequências. Havia nela uma delicadeza quase solene, precedida por elogios que eu não esperava e acompanhada de uma explicação cuja franqueza tornava impossível qualquer interpretação desonesta.

Sou advogado. Talvez por isso minha primeira reação tenha sido procurar a extensão exata daquela declaração. Não porque desejasse contrariá-la, mas porque aprendi, depois de muitos anos, que as pessoas frequentemente dizem mais do que pretendem e, em outras ocasiões, precisam de muitas palavras para conseguir dizer uma única coisa.

Naquela madrugada, porém, a palavra estava suficientemente clara.

Amizade.

Não pedira um encontro, não fizera qualquer promessa, sequer sabia o bastante a respeito daquela mulher para imaginar a possibilidade concreta de uma relação. Tinha apenas manifestado curiosidade, embora reconhecesse, com alguma satisfação, que a curiosidade não era inteiramente desinteressada.

A vida, contudo, cultivava comigo uma ironia antiga. Nas ocasiões em que minha vontade se anunciava inteira, encontrava uma inesperada facilidade para existir. Era quando eu me demorava apenas no prazer de uma conversa, sem lhe atribuir destino, que surgiam diante de mim as fronteiras de um caminho em que ainda não havia colocado os pés.

Talvez aquilo que se declara provoque menos inquietação do que aquilo que permanece por declarar. Uma intenção confessada tem contornos, conhece sua própria extensão e permite ao outro decidir diante do que efetivamente existe. Já a possibilidade, ainda sem nome, cresce livremente na imaginação alheia, adquirindo a gravidade de acontecimentos que sequer começaram.

E havia nisso uma curiosidade quase absurda: enquanto eu procurava conhecer alguém, parecia necessário esclarecer antecipadamente as consequências de um encontro que ainda não acontecera.

Como se a vida, desconfiada da própria espontaneidade, exigisse garantias contra futuros que ninguém havia prometido.

Eu ainda estava na primeira página, interessado na beleza das palavras, quando descobri que já se discutia a prudência de um capítulo que nenhum de nós havia escrito.

E, ao olhar melhor para o livro, vi que havia beleza. Eu a percebera.

Havia também uma inteligência que me surpreendera, e a maneira como ela reconhecera algo de valor naquilo que eu escrevia produzira em mim uma impressão difícil de explicar.

Talvez o problema estivesse precisamente nessa dificuldade.

Não era a primeira vez que me faltava uma palavra. Era, contudo, uma das poucas ocasiões em que sua ausência me pareceu agradável.

Voltei à mensagem.

Ela dizia estar feliz, honrada, surpreendida. Falava da minha escrita com uma generosidade que eu dificilmente teria concedido a mim mesmo. Depois, com a naturalidade de quem procura proteger aquilo que ainda está começando, apresentou a possibilidade de uma Amizade.

A sinceridade daquela mulher me agradou.

Pensei em responder imediatamente, mas não sabia se deveria fazê-lo com a mesma solenidade que ela parecia reconhecer em mim ou com a informalidade que tanto a havia surpreendido.

Sorri ao perceber a ironia.

Tínhamos acabado de descobrir uma conversa espontânea e já estávamos estabelecendo as condições de sua continuidade.

Faltavam apenas as assinaturas.

Deixei o telefone sobre a mesa e procurei recordar quando começara aquela estranha familiaridade.

A resposta me levou muito mais longe do que eu esperava.

Eu a conhecera numa idade em que ainda acreditava que o mundo poderia ser explicado por um número suficientemente grande de certezas.

Havia um ambiente de reverência, vozes que se erguiam em uníssono e uma disciplina cuja severidade confundíamos, algumas vezes, com a própria natureza do sagrado.

Era jovem demais para compreender que a convicção também pode ser uma forma de ignorância.

Defendia princípios com a gravidade de quem acreditava possuir alguma responsabilidade pela estabilidade moral do universo. Aquilo que hoje me parece desproporcional, naquela época me parecia indispensável.

Não sei se ela se lembrava de mim assim.

Talvez conservasse apenas a figura de um rapaz excessivamente sério, de opiniões enfáticas e maneiras formais. Talvez sua memória tivesse sido mais generosa. Não lhe perguntei.

Também não saberia dizer o que eu recordava dela.

Uma voz, possivelmente. O rosto pertencente a uma idade que já não existia. A lembrança vaga de alguém que havia habitado o mesmo ambiente durante uma pequena parte da minha juventude.

Nada que justificasse a impressão de conhecê-la.

Entretanto, era essa a impressão.

Há uma arrogância involuntária na memória. Guardamos as pessoas como se elas interrompessem a própria existência no instante em que deixamos de acompanhá-las.

Conservamos uma imagem e lhe atribuímos a estabilidade das coisas concluídas.

Enquanto isso, a pessoa continua.

Aprende aquilo que desconhecíamos, abandona convicções que julgávamos inseparáveis de sua personalidade, experimenta alegrias que não presenciamos e atravessa sofrimentos cuja gravidade jamais chegaremos a compreender inteiramente.

E nós, ocupados com a própria existência, nem sequer percebemos que aquela antiga fotografia deixou de corresponder ao seu objeto.

Lembrei-me de Heráclito.

O rio, naturalmente.

Sempre me impressionara a possibilidade de que a identidade humana dependesse de uma continuidade que nenhuma de suas partes conserva inteiramente.

Eu também havia mudado.

Perdera algumas crenças e recuperara outras sob formas que meu antigo pensamento talvez condenasse. Conhecera a experiência do amor, a vertigem de suas promessas e a lenta desintegração de certas permanências.

Havia sido feliz.

Havia fracassado.

E ainda não sabia em que medida essas duas experiências podiam ser separadas.

O homem que agora segurava aquele telefone era, em muitos aspectos, um desconhecido para o rapaz que tantas vezes imaginara o próprio futuro.

Como poderia esperar que ela fosse a mesma?

A pergunta me interessou.

Pela primeira vez em muitos anos, desejei conhecer alguém que, tecnicamente, já conhecia.

Tudo começara por uma indignação.

Uma notícia desagradável, dessas que nos fazem duvidar da capacidade humana de administrar o próprio mundo, havia provocado uma conversa que eu imaginara passageira.

Falei com a severidade habitual.

Ela respondeu com uma opinião.

Não me surpreendeu que concordasse comigo em determinados pontos. O que me chamou a atenção foi a maneira como construíra seu pensamento, a disposição de ir além da concordância e apresentar razões próprias.

Eu não sabia que ela gostava daqueles assuntos.

Disse isso.

Ela riu.

Explicou que gostava, embora preferisse não se expor muito.

Havia uma discrição naquela resposta que me pareceu interessante, sobretudo porque eu próprio passara boa parte da vida fazendo precisamente o contrário: transformando inquietações em palavras e oferecendo-as a desconhecidos que nem sempre demonstravam qualquer disposição para compreendê-las.

Conversamos um pouco mais.

Descobri, então, que ela acompanhava meus escritos.

Não ocasionalmente, como quem encontra uma publicação e lhe concede alguns segundos de atenção. Falou da maneira como minhas palavras provocavam reflexões, alcançavam pessoas e apresentavam perspectivas diferentes.

Era estranho.

Eu me acostumara a escrever para uma plateia invisível e, de repente, aquela plateia adquiria um rosto que minha memória conhecia desde muito antes de eu ter aprendido a escrever como escrevia.

Perguntei, em tom de brincadeira, se existia entre nós uma admiração recíproca ainda não confessa.

A pergunta ficou onde as perguntas ficam quando ninguém precisa respondê-las imediatamente.

E a conversa continuou.

Foi talvez nesse momento que comecei a compreender a peculiaridade daquele reencontro.

Ela havia conhecido alguma coisa de mim por intermédio das palavras que eu deixara pelo mundo.

Eu, entretanto, nada sabia das palavras que a vida havia escrito nela.

O desequilíbrio me despertava curiosidade.

Não porque desejasse corrigir uma injustiça, mas porque há um encanto particular em perceber que uma pessoa existe para além da pequena representação que construímos a seu respeito.

Ela tinha uma história.

E eu ainda não a conhecia.

Mais tarde, quando a conversa ganhou outra intimidade, descobri que também existia naquela mulher uma inclinação para o romantismo.

Falamos de literatura, da beleza das coisas que não conseguem ser inteiramente explicadas e da estranha condição de quem percebe detalhes que outras pessoas atravessam sem notar.

A poesia apareceu com a naturalidade dos assuntos que nos interessam verdadeiramente.

Ela disse que éramos poesias.

Gostei daquela formulação.

Havia nela uma compreensão que ultrapassava o elogio, como se a linguagem fosse insuficiente para conter aquilo que nos tornamos e, precisamente por essa insuficiência, precisássemos continuar escrevendo.

Eu sempre havia considerado o romantismo uma disposição arriscada.

O romântico costuma exigir da realidade uma beleza que ela raramente se comprometeu a oferecer. Quando a encontra, deseja conservá-la. Quando a perde, permanece algum tempo procurando explicações para o que talvez jamais tenha sido explicável.

Talvez por isso eu tivesse aprendido a desconfiar de minhas próprias expectativas.

Naquela noite, contudo, não havia expectativa alguma que eu precisasse defender.

Apenas conversávamos.

E a ausência de finalidade tornava tudo estranhamente agradável.

O relógio avançava sem que eu lhe concedesse a atenção devida. A casa permanecia silenciosa, enquanto pequenas mensagens chegavam, eram lidas e respondiam a pensamentos que eu não imaginava compartilhar naquela hora.

Eu vinha de um dia difícil.

Não era uma dificuldade que se pudesse resolver com uma conversa, por melhor que fosse. Havia questões demasiado antigas, responsabilidades que não admitiam interrupção e uma espécie de cansaço que permanecia mesmo quando eu conseguia descansar.

Entretanto, naquela madrugada, sorri algumas vezes.

Não saberia explicar o motivo exato.

Talvez a leveza.

Talvez a surpresa de encontrar alguém disposto a conversar sobre as coisas que eu considerava importantes.

Ou, simplesmente, a experiência de perceber uma mulher bonita e interessante revelando aspectos de uma personalidade que eu desconhecia.

Não pretendi investigar a natureza daquele contentamento.

Pela primeira vez em muito tempo, uma coisa boa não me pareceu exigir explicação imediata.

Foi então que voltei a pensar na palavra.

Amizade.

Ela continuava ali, com toda a legitimidade de quem a havia pronunciado.

Mas a conversa prosseguira depois dela.

Essa circunstância não modificava o sentido do limite estabelecido. Mostrava, apenas, que a convivência ainda possuía possibilidades que não dependiam de uma definição amorosa.

O futuro permanecia desconhecido.

E eu começava a apreciar essa condição.

Já havia feito promessas suficientes para compreender que nenhuma sinceridade, por mais profunda, consegue antecipar as transformações do sentimento.

Também conhecia a responsabilidade de não confundir uma possibilidade desejada com uma promessa recebida.

Talvez estivéssemos apenas descobrindo uma Amizade.

Talvez a admiração conservasse algum elemento de atração que nenhum de nós pretendesse desenvolver naquele momento.

Talvez o tempo, que tantas vezes me surpreendera pela crueldade de suas mudanças, estivesse simplesmente oferecendo uma experiência agradável cuja importância ainda não podia ser medida.

Nada disso precisava ser decidido naquela madrugada.

Abri novamente a conversa.

Pensei em escrever alguma coisa espirituosa sobre a necessidade de redigirmos um instrumento que delimitasse nossos direitos e obrigações recíprocos.

Sorri antes mesmo de terminar a frase.

Era uma imagem ridícula, mas inteiramente compatível com nossa maneira de pensar.

Duas pessoas que mal começavam a se conhecer e já corriam o risco de transformar a espontaneidade em um procedimento cuidadosamente regulamentado: cláusulas, parágrafos, aditivos...

Talvez fosse nosso modo de proteger o que não desejávamos perder.

Talvez fosse apenas medo, vestido com a linguagem respeitável da prudência.

Não consegui decidir.

Escrevi.

E, enquanto procurava uma maneira de fazer graça com a nossa excessiva formalidade, ocorreu-me que havia algo de profundamente humano naquela tentativa de estabelecer fronteiras em torno de uma aproximação.

Queríamos continuar.

Era o bastante para aquele momento.

O restante permaneceria fora do contrato.

O restante permaneceria fora do contrato.

O tempo, afinal, jamais assinara qualquer um deles.

E assim nos percebi:

dois parênteses entre reticências.

(...)


 


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